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Camila Saccomori

Precisamos falar sobre criar meninos e meninas sem silêncios

Nossa colunista Camila Saccomori acredita que o “mundo melhor” que desejamos começa pela revolução na criação dos filhos

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Como assim um documentário chamado “O Silêncio dos Homens”? Mas eles não falam o tempo inteiro? Discursam (são maioria na política), tomam conta de reuniões (são maioria nos cargos de liderança), estão sempre se impondo em qualquer ambiente. Não, não é disso que se trata. Os homens não falam de suas emoções. Não demonstram suas fragilidades. Sofrem, mas sofrem calados. Vivenciam altos níveis de ansiedade e depressão, usam a violência e abusam de substâncias por não conseguirem sequer entender o que sentem. Estão em silêncio sobre estes assuntos. Ou melhor, estavam. Agora é o tema da vez.

Escrevo sobre primeira infância (o período que vai dos zero aos 6 anos) por acreditar que o tal do “mundo melhor” que desejamos construir começa pela revolução na criação dos nossos filhos. Sou mãe de menina, mas é também meu papel ajudar a desconstruir mitos como “menino não chora”. De mostrar que na hora do recreio todo mundo pode se misturar em vez dos guris ficarem jogando futebol e as gurias brincando de bonecas. Porque é nestes pequenos símbolos e estereótipos do dia a dia que a mudança começa.

Como família, é nosso papel incentivar que as crianças falem de emoções e ajudá-las a traduzirem o que sentem. A maturidade demora a chegar. Nossa própria compreensão de mundo também se transforma com o passar do tempo, imaginem com esses pequenos seres que dependem da gente para tudo! A velocidade com que aprendem coisas novas é aceleradíssima. Mas conceitos arraigados há séculos são difíceis de serem rompidos. É por isso que defendo que ter filhos implica em um exercício forte de autoconhecimento. Pois mesmo pais e mães com mentes mais abertas volta e meia escorregam no exercício de educar - afinal, nós mesmos fomos educados com outros parâmetros.

Meninos crescem sem poder demonstrar fragilidades. E o que acontece quando a gente segura muito os sentimentos ou sensações ruins dentro da gente? Em algum momento tudo explode. Os medos que não foram compartilhados ficam guardados em algum cantinho da alma. Anos depois, a conta chega - e quem paga somos todos nós, meninos e meninas. Se eu quero que a minha filha daqui a 20 anos encontre um mundo mais igualitário, desde agora eu e você precisamos nos unir para fazer esse cenário dar certo.

De volta ao documentário “O Silêncio dos Homens”, lançado nos últimos dias pelo projeto @PapoDeHomem: 40 mil pessoas foram ouvidas para uma pesquisa sobre masculinidades, que resultou em uma hora de conteúdo impactante (assista gratuitamente no YouTube). No mesmo YouTube, aprendemos com a cientista social Brené Brown que vulnerabilidade não é sinônimo de covardia e medo. Pelo contrário: ao compartilhar nossas angústias, ganhamos força. É este o recado que todos estão querendo passar! 

As mulheres são maioria em sessões de terapia. Sentam em um bar e contam intimidades para as amigas sem pudor. Levam os filhos para todo lugar, incluindo local de trabalho, sem virarem notícia no jornal. Os homens estão começando a se abrir. Há iniciativas surgindo especificamente para reuni-los (olá, Guerreiros do Coração, amei saber da existência de vocês!). Em Porto Alegre, tenho o privilégio de acompanhar de perto o trabalho de três influenciadores que exercitam a paternidade ativamente, de uma forma sequer sonhada até poucos anos atrás. São seguidos majoritariamente por mulheres (ainda), mas com a nossa força podem justamente começar a influenciar mais homens. 

O Beto (@pai_mala) sonha com o dia em que a gente possa falar apenas "paternidade", e não "paternidade ativa", assim como apenas falamos "maternidade" e nada mais. Pois ninguém aí cogita que uma mãe possa simplesmente abrir mão dos rebentos por estar ocupada demais, negociar pensão e “visitar” de 15 em 15 dias, certo? 

O Pedro (@canalserpai) recebe trocentas mensagens por dia de mães que criam seus filhos sozinhas, casadas ou não, e contam barbaridades sobre a falta de participação masculina. E ele mostra na prática que trocar fralda, carregar a mochilinha rosa e deixar a filha pintar suas unhas não ninguém menos ou mais machão. E que dividir as tarefas da casa tem que ser orgânico. Em vez de palmas, largar o famoso “não faz mais do que a obrigação”.

 Afinadíssimo com a igualdade de direitos e de gêneros, o Lucas (@papai.feminista) traz todos os dias muitos cutucões para famílias que ainda não sacaram que o mundo mudou. "Toda vez que o homem falha no cuidado com o casal, ele sobrecarrega a mulher e não permite que ela seja a melhor mãe que poderia ser. Não adianta bancar o superpai sem olhar pra sua companheira com a mesma empatia".

E então, vamos juntos criar meninos e meninas com menos silêncios?

por Camila Saccomori

Camila Saccomori é mãe da Pietra e jornalista especializada em Primeira Infância. Escreve conteúdos para famílias no projeto @vamoscriar. A cada 15 dias, compartilha no Bella+ dicas para criação de filhos e temas contemporâneos da parentalidade.


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