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Lorena Lacava comanda um grupo de mulheres churrasqueiras há 8 anos

Churrasco também é coisa de guria

Já vão longe os dias em que as mulheres não chegavam perto das churrasqueiras. Hoje elas assam a carne na brasa e no fogo em eventos e em casa

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Enfrentando preconceito e se esquivando de expressões de desconfiança, as mulheres estão dispensando os homens e assumindo o comando das churrasqueiras. A prova pode ser vista nos corredores da Expointer, onde assam churrasco de qualidade e sabor. Uma dessas churrasqueiras é Lorena Lacava, 36 anos, formada em Medicina Veterinária. Gaúcha de Sant’Ana do Livramento e residente no Paraná há 8 anos, Lorena criou o projeto Churras das Gurias que hoje tem mais de 20 mil seguidores. “O grupo começou como uma brincadeira, só com mulheres. A intenção era repassar conhecimento técnico, de como fazer um corte, escolher o tipo de carne e o tempo de fogo. Ou seja, mostrar como acontece o preparo do churrasco desde o campo até o prato. Isso aconteceu há um ano e meio. Hoje, o projeto tomou proporções gigantescas”, conta ela, que integra a Associação Brasileira de Angus.

Lorena, que tem mestrado em Ciência Animal e atualmente cursa Gastronomia, não se limita às carnes e também coloca na brasa pães, massas, queijos e bananas. “Precisamos desmistificar esse tabu que há entre homens e mulheres. A mulher pode tudo, inclusive fazer churrasco. Infelizmente fazemos parte de um mundo muito machista e ainda enfrentamos e sofremos muito preconceito. Isso acontece em todos os lugares, dentro de casa e na sociedade em geral”, comenta. A churrasqueira confirma que já foi motivo de piada e alvo de chacota (especialmente dos homens), mas sustenta que é preciso manter uma postura firme, séria e, eventualmente, até mesmo agressiva, a fim de demonstrar a eficiência do trabalho que tem como resultado final uma carne suculenta e saborosa. “Hoje em dia faço cerca de 10 eventos por mês e geralmente 60% do público é de homens”, revela.

Outra mulher churrasqueira é Júlia Carvalho, 29 anos, que participou de um evento no primeiro domingo de feira na sede da Associação Brasileira de Hereford e Braford (ABHB. Ela conta que há dois anos, após ter se formado em Psicologia, ficou frustrada com a área da graduação escolhida porque não se identificava em nada com a profissão. “Precisava me encontrar em outro setor. Foi aí que me dei conta que sempre gostei de cozinhar. E, mais que isso, sempre gostei de comer bem. Então me aventurei no ramo da gastronomia, mas sinceramente nunca tinha pensado nisso como uma profissão”, relata Júlia, que admite ser apaixonada por carnes e hoje vive dos eventos que faz aos finais de semana, especialmente em São Paulo, onde mora, e na grande São Paulo.

“Hoje tenho um outro olhar quando vou ao mercado ou no açougue. As pessoas têm mania de chegar no balcão e pedir carne para bife ou estrogonofe. Eu escolho a carne pela raça e pelo corte. Sei bem o pedaço e o tipo de carne que quero. Existe técnica para cada tipo de churrasco”, destaca. “Hoje sou bem exigente e isso faz toda a diferença.”

Júlia percebe que uma mulher na volta da churrasqueira, cuidando os espetos e virando a carne chama atenção dos homens. Isso causa certa desconfiança. Porém, é a primeira impressão. Depois de saborear a carne, o respeito desse público vem naturalmente. Ela garante que a mulher é mais caprichosa e detalhista. E isso acaba sendo percebido. “Nos preocupamos mais com a limpeza da bancada. Existe sim diferença, começando pela nossa delicadeza, tanto no corte, como no preparo e também ao servir”, diz ela, que gosta mesmo é de fogo de chão. “Minha grande paixão é assar ao ar livre.”

Caseiro

Além dos espaços gourmets ou comerciais, a Expointer mostrou também as churrasqueiras familiares. Assim como Júlia, a agricultora Diva Possebom De Mari, 52 anos, moradora de Carlos Barbosa, diz que “gosta mesmo” do fogo de chão para fazer um assado “bem campeiro, no meio do mato”. Ivana Ribeiro de Castro, 43 anos, que comercializou churrasquinhos na feira, diz que faz churrasco em casa também, para os filhos de 7 e 12 anos. “Na falta de marido e com a vontade de comer carne assada, eu mesma aprendi a fazer nosso churrasco. As crianças adoram.”

Por: Fernanda Bassôa 


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