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Outubro Rosa: 'Me descobri mais corajosa do que nunca'

Luciane Bernardes, 50 anos, superou o câncer de mama duas vezes e um melanoma de coróide

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"Meu nome é Luciane, tenho 50 anos, sou pedagoga e moro em Porto Alegre. Descobri o câncer de mama em 2010, após exames de rotina. Foi um susto enorme, nunca pensei que teria esse tipo de câncer, porque na época não me via como alguém que tivesse risco de contraí-lo, apesar de um histórico familiar favorável ao desenvolvimento da doença. Não me via em um "grupo de risco", nunca fumei, nunca tinha tomado uma gota de álcool, tive três filhos, amamentei os três, não era obesa nem sedentária e me parecia que eu tinha feito as "escolhas certas". Para minha surpresa, o câncer apareceu independente dessas escolhas. 

O diagnóstico recebido não era animador: carcinoma ductal infiltrante, no bico do seio, com 3,5 cm. A mastologista da época optou por uma cirurgia de retirada da mama com a reconstrução da mesma, mais abdominoplastia, tudo durante a mesma cirurgia. Isso me animou bastante, porém, pouco tempo depois, veio a decepção: a prótese foi rejeitada pelo meu organismo. Tive que retirá-la e todo esse processo acabou atrasando o início da quimioterapia - só a iniciei três meses após a cirurgia.

Do ponto de vista emocional, fiquei muito abalada, perder a mama, o cabelo e engordar 14 quilos não estavam nos meus planos. Além disso, eu vivia um momento profissional difícil e acreditava que haveria um grande culpado para isso tudo. Só podia ser as dificuldades do trabalho e o estresse decorrente disso. Para dar conta da situação, busquei alimentar a minha espiritualidade, recorri à terapia, comecei a escrever em um blog e, como sempre fui uma leitora voraz, busquei inspiração nos livros para aguentar o que veio.

Sou uma mulher muito vaidosa, então não preciso dizer que sofri muito com o fato de perder os cabelos e a mama. Apesar de ter sido tão difícil, tentei enfrentar com bom humor e me imaginei um pouco travestida de mim mesma. Nessas aventuras, recorri a diferentes perucas, ao sutiã com enchimento e usei a maquiagem como nunca, tudo para me sentir um "pouco mulher". 

Fiz a última reconstrução em 2012, após a prótese ter rompido mais uma vez. Em abril de 2017, após sentir dores na axila, fiz uma ressonância magnética na região das mamas e acusou um linfonodo atípico, com chance de ser recidiva do primeiro câncer. Meu mundo caiu de novo, eu estava em uma fase completamente diferente do primeiro câncer, em um trabalho novo, com bons desafios e fazendo o que eu gosto. A vida familiar em boa fase, dois filhos formados e já trilhando seus próprios caminhos nas suas casas, o caçula em uma ótima universidade pública, meu marido e eu em uma fase boa em que nossos planos eram de viajar e aproveitar... E aí câncer de novo.

No início, neguei a questão, achava que após a cirurgia viria um resultado negativo na biópsia, custei a acreditar. Nessa hora, o papel das médicas foi crucial. Elas me colocaram literalmente para "dentro da casa", me fazendo enfrentar a realidade: "é câncer, vais ficar bem desta vez também" e "precisamos conversar sobre os cabelos." Em poucas palavras, tive o panorama do que eu já sabia que viria e a assertividade da oncologista e o carinho da minha mastologista me deram suporte para enfrentar com coragem o que viria.

O tratamento incluiu cirurgia, quimioterapia e radioterapia. Foi bem difícil do ponto de vista físico, minha imunidade caiu muito. Tive duas internações, mas me mantive positiva e firme no trabalho, tentava levar uma vida o mais normal possível.

No final do tratamento, em dezembro de 2017, senti uma forte dor de cabeça, minha pressão arterial subiu muito. Minha oncologista foi atenta e pediu uma ressonância do crânio. O resultado veio como um novo tsunami: um melanoma de coróide no olho direito. Eu não sabia nada dessa doença. Minha oncologista também me disse que eu precisava ver outros médicos, era um câncer raro, sem tratamento em Porto Alegre.

Fui encaminhada para o Hospital de Olhos de São Paulo e lá passei por braquiterapia, em fevereiro de 2018, um tratamento que envolve um procedimento cirúrgico e colocação de uma placa radioativa dentro do olho, e uma internação em isolamento total por quatro dias. Fiquei 15 dias em São Paulo. Meu marido, meu fiel escudeiro, sempre junto comigo. Tivemos momentos muito difíceis em que nos imaginávamos em uma dobra do tempo, uma realidade quase flutuante, uma sensação muito louca. 

Para minha surpresa, me descobri mais corajosa do que nunca. Minha família e meus amigos foram o meu porto seguro. Investi muito nesse convívio, pedi orações, me coloquei em estado de espera confiante e fiz um esforço para manter a esperança em alta.

Fui informada que o tratamento teria três premissas: 1. Salvar a minha vida. 2. salvar o  meu olho, já que a retirada do mesmo era uma possibilidade. 3. Salvar a minha visão. Vencemos as três, só a visão foi atingida, mas não totalmente.

O câncer é uma doença que mexe com a feminilidade e com a autoestima, é difícil se olhar e não ter a tendência a se penalizar, penso que consegui resistir ao papel de vítima e tenho enfrentado esse inimigo como uma protagonista. Já que não posso mudar a realidade, não me entrego, tento encarar essa aventura como a descida de uma montanha russa com seus altos e baixos, mas de olhos abertos como alguém que não tem medo...

Se me perguntarem se isso é fácil respondo com sinceridade que claro que não é, mas também não é tão assustador, porque confio no tratamento, confio na equipe de médicos e confio principalmente em um Deus amoroso que está sempre comigo e me sustenta. 

Não sei o que enfrentarei daqui para frente, me sinto curada, mas estou sempre em estado de alerta e cuidado.

Desejo sinceramente que com o tempo as terapias de tratamento do câncer evoluam a tal ponto que os estragos sejam cada vez menores. De qualquer jeito, estou consciente da minha condição de paciente oncológica e farei a minha parte nesse processo de afastar o câncer de mim.

Desejo a você que está passando por isso muita coragem e fé!"


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