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Ana Timm

A alma da roupa

Adepta dos pijamas aos finais de semana, Ana Timm se surpreendeu ao mudar sua rotina de quarentena

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Sempre fui dessas pessoas que adora ficar o dia inteiro de pijama. Fim de semana de inverno então, nem se fala. Coloco um roupão por cima e sou feliz. Também nunca tive problema em ficar em casa, canceriana que sou, adoro o conforto do lar.

Mas em meio à pandemia, comecei a questionar alguns desses hábitos. Dia desses me “arrumei para ficar na sala”. Sim, tipo Natal. Coloquei sapato e tudo – quem está trabalhando em atividade EAD sabe que, em geral, estamos de blazer e... pantufa :P – e fui almoçar na varanda. Aquilo me fez um bem tão grande que me peguei pensando na máxima de que “nunca nos arrumamos para nós mesmos, e sim para os outros”.

Bem, a única pessoa humana (sim, porque tenho duas pessoinhas caninas em casa) que me acompanha na quarentena é o namorado, que me vê há 19 anos acordar descabelada, de camisetão e meia furada. Portanto, a produção foi para mim. Fez um bem danado para a autoestima. Alguns dirão que pensar em roupa em um momento como esse é a maior bobagem. Pode ser. Se enxergarem as vestes apenas como pedaços de pano, até concordo.

Porém, a roupa é mais. A moda é mais. E esse é o momento exato para pensarmos sobre isso. É urgente uma transformação não só no sentido fabril, mas em todo o pensamento por trás da indústria do vestuário e mesmo das mentalidades em relação a este ofício. Sim, sei que pareço repetitiva, mas é que se não for agora, não mais será. Em meio ao caos podemos finalmente produzir algo substancial para repensar a cadeia.

Primeiramente precisamos valorizar os profissionais que exercem estes saberes. Não só no momento em que necessitamos deles pois queremos sair às ruas com o rosto protegido por uma máscara. Aliás, nem assim há a admiração que cito, já que muitas costureiras precisaram recorrer à venda destas; e, mesmo cobrando valores simbólicos, foram criticadas por não disponibilizarem gratuitamente o produto. Caramba. Vocês já se deram conta que esta é uma profissão? Que é o ganha-pão de muitas pessoas, principalmente mulheres, Brasil afora?

Também é necessário questionar a indústria. A cópia. A quantidade de roupa produzida. Os salários (mal) pagos desses trabalhadores. A velocidade. Os excessos em geral. A falta de alma.

Pois dizia Mario Quintana que “viajar é mudar a roupa da alma”. Em um tempo em que sair por aí desbravando o mundo não é uma opção, continuemos a trocar nossas roupagens. Todas elas.  

por Ana Timm

Ana Luiza Timm Soares é designer de moda e mestre (Jedi) em História. É professora, apaixonada por comida e ainda mais pelos lambeijos de sua cachorra Batatinha. Escreve semanalmente sobre moda e seus aspectos histórico, social e filosófico mas sempre mantendo um pé na passarela. @anatim_m


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