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Ana Timm

A falácia da nostalgia moral

Ana Timm fala sobre o uso de peças femininas no guarda roupas masculino

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... “No meu tempo não era assim...” diz o cidadão (de bem) ao se deparar com o meu último texto aqui do portal. “Onde já se viu, homem de saias? O mundo está mesmo perdido”. Para além do fato deste discurso estar absolutamente descontextualizado com o tempo em que vivemos, saiba que o senhor ainda está mal informado, caro leitor.

Homens adornados com peças que hoje fazem parte do closet feminino é uma prática bem mais antiga do que se pode imaginar. Não só as saias, como maquiagem, perucas, saltos e todas as cores do arco-íris já cobriram corpos masculinos ao longo da História.

Na indumentária de diferentes povos e em distintos períodos podemos observar o uso de túnicas, togas e saias, por serem fáceis de fabricar e de vestir. Basta pesquisar um pouquinho as iconografias dos egípcios, gregos, romanos, astecas – entre outras civilizações pretéritas – para compreender esta afirmação.

Mas foi na sociedade de corte francesa, nos séculos XVII e XVIII que o armário do homem aristocrata se torna ricamente adornado e voluptuoso, com o uso de saltos – quanto mais alto, mais poderoso aquele que o carregava. A utilização da cor vermelha também era um ponto importante nos calçados, sendo permitida somente aos nobres mais próximos ao rei. O rosa, por ser associado ao carmim representava a força masculina, enquanto o azul era visto como mais delicado e feminino (olha a simbologia das cores aí de novo, gente! Só que ao contrário...).

Já as perucas foram popularizadas pelo jovem calvo Luís XIII e eternizadas pelas pinturas de seu sucessor, – o “Rei Sol” – bem como o uso de maquiagem e pintas postiças para ambos os sexos. Nenhum destes adornos colocava em xeque a virilidade de quem os vestia, pelo contrário: todos estavam associados a símbolos de poder e masculinidade.

A queda da monarquia francesa e o advento da sociedade industrial modificam completamente o padrão de vestuário formal masculino, e ele fica muito mais parecido com o que conhecemos hoje. Se, anteriormente, a ideia de moda era primordialmente guiada pelo conceito de imitação, a derrocada do Antigo Regime e a perda do prestígio da nobreza culminaram na necessidade de diferenciação por parte da burguesia em ascensão.

O traje dos homens passa do exagero ostentatório e aristocrático à sisudez sóbria, linhas retas e tons neutros do producente capitalista. Em meados do século XIX o poder era medido pela altura do cilindro da cartola: quanto maior o “efeito chaminé” do chapéu, mais rico seria seu portador.

Nesse sentido, penso que já ficou mais do que claro que os padrões de vestimenta se modificam ao longo do tempo e que se utilizar deste discurso para reafirmar preconceitos é a tendência mais over da temporada... Como diria a brilhante e saudosa Fernanda Young, (não podia deixar de homenageá-la neste texto) “a cafonice odeia o diferente, pois não tem um pingo de originalidade em suas veias”.

Até a próxima!

por Ana Timm

Ana Luiza Timm Soares é designer de moda e mestre (Jedi) em História. É professora, apaixonada por comida e ainda mais pelos lambeijos de sua cachorra Batatinha. Escreve semanalmente sobre moda e seus aspectos histórico, social e filosófico mas sempre mantendo um pé na passarela. @anatim_m


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