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Ana Timm

A moda como vetor cultural: códigos do vestir (um manifesto)

Em sua estreia no Bella Mais, Ana Timm fala da moda como representação e relação de poder

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“O passado é uma roupa que não nos serve mais” entoava certo rapaz latino americano, trajando seu paletó de linho branco. Assim como na canção, as vestes que nos cobrem dialogam não apenas com preferências estéticas particulares, mas com o “espírito do tempo” em que foram idealizadas.

A moda - para além da ideia de futilidade que muitos ainda insistem em atribuir - influencia não apenas o vestuário, estando estreitamente relacionada a noções de identidade, cultura, pertencimento e diferenciação. Ela é um sistema que descreve e auxilia a construção das historicidades, atuando na composição dos sujeitos, produzindo efeitos identitários e sociais efetivos.

É importante ressaltar, nesse sentido, que moda não é apenas roupa, mas a indumentária também carrega em si representações e relações de poder as quais perpassam a ideia de que “precisamos dela apenas para não sair nus pelas ruas”. Mulheres vestindo toga em uma formatura, por exemplo, corroboram esta ideia, visto que por muito tempo nos foi negado o direito e o acesso à educação.

Porém! Ah, sempre tem um porém...

Sabemos que a indústria da confecção há mais de um século é reduto, primordialmente, de mão de obra feminina. Mas também estamos cientes de que, apesar de termos nomes extremamente relevantes no mercado na área de inovação, são os homens que ainda dominam não só as mentalidades do universo fashion, bem como a cena de direção criativa em muitas grandes maisons. Mas vamos guardar essa informação para discussões posteriores e voltemos ao cerne deste pequeno texto.

Gostaria de rememorar alguns períodos icônicos em que a Moda representou processos de transformação ou serviu como sustentáculo do status quo vigente em determinadas épocas históricas.

Em fins dos anos 1940, o ideal de feminilidade proposto por Christian Dior com seu New Look corroborava os anseios da sociedade para que as mulheres retornassem ao lar, assumissem o papel materno e abdicassem dos postos de trabalho conquistados no período bélico*, já que os homens novamente ocupariam esses cargos quando de seu regresso. Nesse sentido, as saias volumosas e de custos exorbitantes idealizadas pelo estilista escandalizavam a sociedade após um longo período de recessão e visavam resgatar não só o glamour da fartura de outrora, bem como funções bem definidas para ambos os sexos.

Mais recentemente, nos anos 80 – que alguns leitorxs devem trazer ainda nítido e repleto de cores neon na memória – o uso de ombreiras por parte do contingente feminino assimilava a forma de um triângulo invertido, resultando em uma imagem com características corporais semelhantes às dos homens. Nesta época o mercado de trabalho se torna mais amplo para as mulheres*, e a aproximação ao âmbito do que antes era considerado fundamentalmente masculino fazia reverberar tais alegorias estéticas e carregadas de poder simbólico.

Como representação individual, a indumentária também atua de forma efetiva como expressão e ideação dos sujeitos. Sob este ponto de vista resgato o desfile épico “El día que me quieras” do estilista Ronaldo Fraga no SPFW N42, cujo casting foi composto exclusivamente por modelos transexuais e travestis. Na ocasião foi gravado um documentário, o qual explanava sobre as impressões destas modelos acerca do desfile e rememora, ainda, um pouco da história pessoal de algumas delas. É emocionante e sintomático saber que muitas destas mulheres se perceberam como tais a partir do uso do primeiro salto, vestido ou batom. Embora possamos discorrer largamente aqui sobre ideais de feminilidade-padrão construídos ao longo do tempo, a percepção de si como sujeito histórico-cultural-subjetivo associada a uma peça do vestuário ou maquiagem reforça este singelo manifesto travestido em palavras que a autora que vos fala propõe ao inaugurar este espaço.

Neste grande desfile da vida, precisamos entender que somos não só expectadorxs, mas agentes das transformações que se avizinham.

Até a próxima!

 

*É importante ressaltar que esta observação se aplica principalmente à mulheres de camadas sociais abastadas, visto que as menos favorecidas financeiramente já precisavam exercer atividades remuneradas.

por Ana Timm

Ana Luiza Timm Soares é designer de moda e mestre (Jedi) em História. É professora, apaixonada por comida e ainda mais pelos lambeijos de sua cachorra Batatinha. Escreve semanalmente sobre moda e seus aspectos histórico, social e filosófico mas sempre mantendo um pé na passarela. @anatim_m


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