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Ana Timm

Esta terra já tem dono!

Ana Timm fala sobre plágio, apropriação cultural e suas reverberações na indústria da Moda

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Contém spoilers do filme Bacurau.

Neste mês a América do Sul foi cenário de diversas manifestações e levantes populares: aliança entre trabalhadores, estudantes e indígenas no Equador, protestos contra a política neoliberal no Chile, entre outros acontecimentos que ficarão legitimamente marcados na História mundial.

Nesse contexto assisti ao filme Bacurau – com um pouco de delay, é verdade – e a mensagem mais importante do lo(u)nga, para mim, é a ideia de que não somos uma terra de ignorantes sem lei e sem dono, e estaremos prontos para defender nosso lar e cultura se assim for necessário. Mas “quediabéisso” e qual a conexão com a indústria da Moda?

Inúmeros são os casos de apropriação cultural e plágio registrados em nosso meio: réplica de cocar indígena em desfile da Victoria’s Secret, sandália paquistanesa em coleção de Paul Smith, suéter estilo Fair Isle copiado pela Chanel, apropriação de estampas da cultura africana por Stella McCartney (que, para piorar trouxe apenas uma modelo negra para a passarela na ocasião) e por aí vai.

Desfile Victoria’s Secret 2012

Chanel, 2015

Stella McCartney, 2017

Ficou mundialmente conhecido o caso da gigante Dior, quando a Maison achou bacana “homenagear” a cultura do povo romeno da pequena cidade de Bihor através da produção de roupas com características dos trajes típicos da região. A grande questão envolvida aqui é que não há qualquer tipo de menção ao artesanato do local e muito menos retorno financeiro para aquela comunidade. Mas a população do pequeno distrito do leste europeu não deixou barato e denunciou ao mundo o disparate da marca de luxo:

A estilista Isabel Marant também esteve envolvida neste tipo de polêmica e causou espanto aos artesãos de Oaxaca/México quando, em 2015, os mesmos receberam uma sentença bizarra de que teriam que pagar direitos autorais à marca. O crime? Comercializar blusas bordadas típicas, as quais são produzidas há mais de 300 anos na região. Pois não contente em “se inspirar” na cultura da província de Santa Maria Tlahuitoltepec, a designer ainda culpabilizou os criadores por plágio. Com o auxílio das redes sociais, a comunidade fez diversas declarações contrárias à atitude de Marant e ainda convidaram-na a conferir a produção inloco, se disponibilizando a ensinar as técnicas artesanais centenárias aplicadas nas batas. Gigantes!

(Esq) Blusa típica da região e a cópia de Isabel Marant (Dir)

Apesar de saber que a luta é árdua, observamos que estes micropoderes vêm ganhando força e estão dispostos a defender sua identidade e História. E não precisam nem dos psicotrópicos. Sua maior força é a união.

Até a próxima!

por Ana Timm

Ana Luiza Timm Soares é designer de moda e mestre (Jedi) em História. É professora, apaixonada por comida e ainda mais pelos lambeijos de sua cachorra Batatinha. Escreve semanalmente sobre moda e seus aspectos histórico, social e filosófico mas sempre mantendo um pé na passarela. @anatim_m


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