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Ana Timm

Exclusivo: Ronaldo Fraga fala de moda, carnaval e cultura brasileira

Nossa colunista Ana Timm conversou com um dos maiores nomes da moda brasileira, que vai ser homenageado por uma escola de samba de Belo Horizonte


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Nossa colunista Ana Timm teve a oportunidade de falar com um dos maiores nomes da moda nacional contemporânea, Ronaldo Fraga. O ex-tilista, como se denomina, e artista visual refletiu sobre suas coleções passadas abordando o brasileiro, o feminino e os atos políticos da moda. Ele ainda nos falou um pouco sobre o samba enredo "Memórias de um Estilista Coração de Galinha" da escola de samba Canto da Alvorada, de Belo Horizonte.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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AT - Recentemente ocorreu em João Pessoa um desfile tendo como foco a renda renascença, artesanato típico do Cariri paraibano, que contou com sua participação. (Inspirada nas obras de Flávio Tavares, a coleção foi gestada após uma série de oficinas ministradas pelo estilista em parceria com o Governo da Paraíba). Qual a importância destes saberes e fazeres para a moda brasileira?

RF - Os saberes e fazeres tradicionais incluem gastronomia, moradia; e no caso os trabalhos manuais, muito mais do que um simples artesanato, são vestígios da ancestralidade de um povo. Vestígios para se entender a formação desse povo, e a renda brasileira traz muito disso. Aí reside a importância de que esses saberes não morram, porque neste caso estaremos extinguindo a nossa própria história e o entendimento da formação desta e, portanto, da constituição do nosso povo.

AT - O desenvolvimento de coleções em parceria com comunidades artesãs é uma constante em seu trabalho - podemos citar o desfile “As Mudas”, trabalho realizado com as Meninas Bordadeiras de Barra Longa (2018 - MG); o desenvolvimento de biojóias com as Sereias da Penha em “Fúria da Sereia” (2016 - PB) entre outros. Sabemos que este tipo de mão-de-obra é eminentemente feminina e gera renda à comunidades mais humildes. Acreditas que o fomento destas práticas é uma forma de empoderamento/autonomia das artesãs?

RF - Sim, a maioria dos grupos com os quais eu trabalhei até hoje são eminentemente femininos, mas gostaria que mais homens bordassem e se envolvessem neste tipo de trabalho, como também mais mulheres na marcenaria, por exemplo. Mas falando do feminino, normalmente as mulheres destas comunidades não tem um trabalho valorizado. Basicamente ela está ali para servir ao marido e educar e cuidar dos filhos. Eu me lembro que no Pará a questão do feminicídio era tão alta que eu recebi a orientação de envolver os maridos no processo, porque do contrário as meninas estriam correndo risco de vida, tendo qualquer ganho financeiro a mais do que eles. Então além do trabalho delas, trouxemos a marchetaria, e com isso o trabalho de marcenaria (designado a estes homens). É verdade que havia mais mulheres, mas ocorreu um bom envolvimento dos meninos e isso foi uma história bem bacana. Agora, sem dúvida que tirar a mulher desse lugar somente doméstico – e principalmente quando estes saberes e fazeres tradicionais trazem esse ganho financeiro – é transformador e mágico. A “Fúria da Sereia” foi isso, a força do feminino através de um produto que ia ser jogado no lixo. E foi lindo. Foi muito, muito lindo.

AT - Já que estamos falando de coisas belas, no desfile “E por falar em amor” (2015), comentaste em entrevista que “em tempos de guerra, falar de amor é um ato de subversão”. Em tempos de consumismo exacerbado, fazer moda slow, valorizar saberes antepassados e celebrar a diversidade também é uma forma de resistência?

RF - A forma de resistência na moda hoje é principalmente o estabelecimento de um diálogo com outras frentes, e ela consegue fazer isso com muita desenvoltura. Eu costumo dizer que a moda está louca para se libertar da roupa. Ela quer falar de mais coisas, e não somente de roupas, então é muito importante quando trazemos outras discussões para a moda.

AT - Assim como Zuzu Angel (que também já foi tema de coleção – “Quem matou Zuzu Angel”, 2002), percebes a moda como palco para discussões políticas e sócio-culturais, além de se posicionar ativamente nas redes sociais. Qual a importância deste ativismo político no cenário da moda (e não só) atual?

RF - Para mim o ato da escolha da roupa por si só é um ato político. E de todas as funções da roupa, eu acho essa a mais emocionante: quando o que você veste é a forma como você se percebe para o outro e como você se percebe no mundo. E isso é mágico, transformador. A moda atual está muito mais preocupada com os números e com a economia, mas eu acho que ela pode mais. Sempre acreditei nisso, e quando olho para trás e vejo cerca de 50 coleções, percebo que desde o princípio andei nesse caminho da moda como cultura, comunicação e política. Isso me enche de orgulho e me dá força para continuar adiante, e espero que uma nova geração de designers entenda a moda como tal, pois é disso que estamos precisando.

AT - Para não dizer que não falei de flores... Ops, de Carnaval, este ano a agremiação Canto da Alvorada (Belo Horizonte) irá homenageá-lo com seu samba-enredo “Memórias de um estilista coração de galinha”. Conta um pouquinho pra gente como foi essa experiência e o significado deste título instigante.

RF - Eu acho que para todo brasileiro, pelo menos até a minha geração, ser tema de uma escola de samba é algo muito sério. É o máximo da honraria. Grande parte dos meus mestres da cultura brasileira eu tive o primeiro contato quando estes foram temas de alguma escola de samba do Rio. Então quando recebi esse convite eu fiquei em choque. Pensei: “Ronaldo, você já fez história!” Acredito que temos essa consciência, de que aqueles que fazem a história viram tema de escola de samba; independente de que cidade e de que escola. A Canto da Alvorada é a maior escola de samba de Belo Horizonte, e o trabalho deles é muito sério, ela é muito amada na cidade, e quando eles me convidaram, perguntei: “Por quê?” E o presidente da escola respondeu: “Porque homenagear você e o seu trabalho é falar da cultura brasileira e do Brasil contemporâneo”.

Meu coração tem batido forte a cada domingo, a cada novo ensaio e pedi que fosse surpresa. Eu só sei como será a comissão de frente e o carro que eu encerro o desfile, o restante é tudo surpresa para mim. Viver a comunidade, sair fora da minha bolha e entrar em outra bolha é muito mágico.

Quanto à “Eu amo coração de galinha”, este é o título do meu livro e foi o nome minha primeira coleção quando retornei ao Brasil, no Phytoervas Fashion (o evento foi a precursor no Brasil e deu origem às diversas Semanas de Moda que ocorrem no país hoje). O título era uma metáfora, falava do individual, do único. Não se tratava da galinha em si, mas narrava um pouco dessa história, de que na vida você escolhe que galinha você vai ser: se um frango de granja ou uma galinha colorida que voa, uma galinha de fora do bando. E esta é a história.

AT - Por fim, como professora sei que a última pergunta dos educandos em palestras sempre é “qual a mensagem que você gostaria de deixar aos estudantes de Design de Moda?”. Podes atender a estas súplicas?

RF - A mensagem que eu digo sempre é: deixem as roupas voarem. Deixa a moda estabelecer diálogo com outras frentes, estabeleça diálogo com outras frentes. Saia da coisa ensimesmada da roupa, da moda em si. Porque a moda pode mais, ela é mais. Eu acho que é nesse lugar que a gente vai dar aquilo que é mais importante para as pessoas: a estima, a autoestima para que elas possam construir o personagem diário sem amarras. E isso não é pouco.

 

Sem mais palavras para o momento. Me despeço emocionada e... Até a próxima!

por Ana Timm

Ana Luiza Timm Soares é designer de moda e mestre (Jedi) em História. É professora, apaixonada por comida e ainda mais pelos lambeijos de sua cachorra Batatinha. Escreve semanalmente sobre moda e seus aspectos histórico, social e filosófico mas sempre mantendo um pé na passarela. @anatim_m


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