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Ana Timm

Moda e (é) liberdade

Podemos (e devemos) vestir o que queremos sem nos preocuparmos em "estar na moda"

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*Contém spoilers do último episódio da terceira temporada de Handmaid’s Tale (S03E13)

“Aqui é o lugar onde podemos vestir o que quisermos”? Diz a menina ao desembarcar do avião na season finale da série Handmaid’s Tale. Quem assiste a saga já sabe a importância que as roupas assumem neste mundo distópico – e cada vez mais real – criado por Margareth Atwood.

A premiada figurinista Ane Crabtree segue a lógica do livro, onde a simbologia das vestes e cores permanece fiel à obra literária. Nesse sentido, o papel social de cada personagem é reforçado pelo pigmento de sua indumentária: preto para os comandantes, azul-esverdeado para suas esposas, verde pálido para as “Martas”, vermelho vivo para as Aias e marrom para as “Tias” (mulheres responsáveis pelo “treinamento” das aias). Aqui tem um texto maravilhoso para quem quiser se aprofundar mais neste assunto.

Mas vamos retornar ao ponto principal desta coluna. A garota citada no primeiro parágrafo fazia parte de um grupo de crianças resgatadas em uma força conjunta (EU DISSE QUE TINHA SPOILERS! AHHHH) – e algumas lideranças políticas da contemporaneidade teriam orgulho da sua vestimenta: recato nos comprimentos e rosa bebê. Os meninos que a acompanhavam usavam azul claro.

É interessante notar que a primeira frase da personagem ao sair do avião seja a que abre este texto, tendo em vista o contexto absolutamente proibitivo e misógino em que se inseria. Despida da identidade única que lhe atribuíram, ela poderia SER o que desejasse.

Sobre “estar na Moda”

Pois não é louco que mesmo em uma sociedade que se diz democrática ainda almejemos nos parecer uns com os outros? Embora não tenhamos a necessidade de andar uniformizados pelas ruas (com exceção de profissões que necessitem do traje, obviamente), ainda percebemos a moda como algo regrado, que um dia está IN e no outro, OUT.

Por vezes ainda ouço a seguinte frase (embora com menos frequência do que há algum tempo, é verdade): - Tal tipo de roupa ainda está na moda? Qual vai ser o modelo de saia deste verão? O que você quiser, meu bem. A graça do vestir está justamente na liberdade que deve nos proporcionar. O brilhante estilista Alexander McQueen já dizia que “a moda deve ser uma forma de escapismo, e não uma forma de prisão”. <3

Corpos dóceis

Mas e se a roupa que você escolhe não trouxesse apenas a angústia fútil do “não ter o que vestir” ou a insegurança da opinião alheia e reverberasse em algum tipo de violência (física ou simbólica) quando usamos algo que não seria “adequado” ao corpo que carrega? Já falamos aqui que a roupa, para além das tendências da estação reflete nosso estilo, nossa identidade. Mas por vezes esta não se enquadra em um padrão pré-estabelecido e hegemônico.

Embora a indústria da moda venha se atualizando neste tipo de questionamento, na prática ainda associamos o tal genderless à modelagens retas, tons neutros, e “aceitáveis” do ponto de vista social; além de muitas vezes julgar o coleguinha que decidiu usar saia para ir trabalhar.

Nos anos 1950, o artista plástico Flávio de Carvalho causou furor ao desfilar trajando um modelito tido como “feminino” em plena Avenida Paulista. De lá pra cá mais de meio século passou e permanecemos discutindo o sexo dos anj... Ops, das roupas.

Nesse sentido, alguns estudiosos de comportamento de consumo já apontaram que, em um futuro próximo, a ideia é que não haja mais divisões entre os setores masculino e feminino nas lojas. Aguardemos.

O que é que eu vou fazer com essa tal liberdade?

Ainda caminhamos em passos lentos, embora constantes, no sentido de promoção desta autonomia. Porém historicamente sabemos que períodos de cerceamento surgem justamente para tentar barrar mudanças ativas na sociedade, e não o contrário. Citando a imortal estilista e ativista política brasileira Zuzu Angel, neste contexto é necessário dizer que “Moda tem importância, sim. É um documento histórico. É criação e liberdade”.

Que este seja o lugar onde podemos vestir o que quisermos.

Até a próxima!

por Ana Timm

Ana Luiza Timm Soares é designer de moda e mestre (Jedi) em História. É professora, apaixonada por comida e ainda mais pelos lambeijos de sua cachorra Batatinha. Escreve semanalmente sobre moda e seus aspectos histórico, social e filosófico mas sempre mantendo um pé na passarela. @anatim_m


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