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Ana Timm

Temos nosso próprio tempo...

Ana Timm fala sobre as mudanças e adaptações de estilo pelas quais passamos ao longo da vida

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Dia desses o Facebook rememorou uma foto de 8 anos atrás e, ao me deparar com a imagem, fiquei pensando quem seria aquela pessoa sorridente e de vestidinho colorido e godê. Para além das obviedades estéticas – geralmente autodepreciativas – que uma skincare lover balzaquiana repara, me peguei analisando o quanto aquela fotografia ainda carrega desta que vos fala.

Refleti por certo tempo que a mulher presente na imagem parecia mais leve, feliz. Conversando com alguns amigos, levantamos hipóteses envolvendo o atual cenário político/social/educacional que podem explicar os porquês da Ana de 2019 apresentar feições mais ensimesmadas, sisudas. Como diz o poeta, “envelheci 10 anos ou mais nesse último mês”. Para não trazer só desesperança, lembro que outro rapaz latino americano cantarolava: “... tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro! Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro!”, SEGUIMOS.

Porém, outro aspecto na imagem me chamou a atenção, e este é bastante sintomático do ponto de vista visual. Lembro que no período em que o registro foi feito, me identificava com um estilo muito fofinho, romântico, com uma pegada vintage. E que quando cheguei aos 29 tive uma crise de identidade em relação as roupas que vestia. Assim. Do dia pra noite. Como se fosse inadmissível uma mulher de 30 anos sair por aí com uma camisa de unicórnios. Me desfiz de praticamente tudo – doei, vendi, troquei com as amigas – e passei a ter um estilo muito mais básico, mimimalista.

Apesar de considerar toda a mudança drástica (e dramática) demais, deixei fluir esse sentimento, e depois soube que outras amigas tiveram o mesmo tipo de epifania (white people problem). É claro que podemos discorrer aqui sobre vários pré-conceitos sobre como uma mulher de 30 anos deve ser e/ou se comportar em nossa sociedade e certamente, embora acredite que me preocupe muito pouco com a opinião alheia, isso de alguma forma deve ter influenciado a minha transformação visual.

Mas aí lembrei que antes de ser a mocinha meiga de blazer de brechó e saia rodada, eu já tinha passado por um momento rock n’ roll onde, cada vez que estendia as roupas no varal, um cenário digno de “A Família Addams” se formava. Alguns amigos chegaram a questionar meu apreço contemporâneo por bandas de rock, já que “nunca mais me viram toda de preto e lápis na linha d’água”.

E antes disso (ou será que foi depois?), fui hippie. Longos e ruivos cabelos à la Maria Betânia. Já na pré-adolescência vestia camisetas e tênis de jogadores de basquete – tudo volta, né? ☺ - e por aí vai. Acredito que, por trabalhar com Moda, vejo essas passagens do tempo de forma nostálgica, e tenho certeza de que todas elas influenciaram o meu estilo hoje. Que pode não ser o mesmo o de amanhã. E também não é “melhor” ou “pior” do que o de ontem. Tudo é um processo de autoconhecimento estético. Ou não.

E sim, ainda amo unicórnios.

Até a próxima!

por Ana Timm

Ana Luiza Timm Soares é designer de moda e mestre (Jedi) em História. É professora, apaixonada por comida e ainda mais pelos lambeijos de sua cachorra Batatinha. Escreve semanalmente sobre moda e seus aspectos histórico, social e filosófico mas sempre mantendo um pé na passarela. @anatim_m


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