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Arieli Groff

Mães precisam de outras mães

Um desejo para esse novo ano: que toda mãe encontre o apoio que merece

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Não encontramos registro histórico de uma sociedade que não tenha sido organizada e baseada no patriarcado. Na qual fortalecer as mulheres não é interessante ao sistema. Não sou de levantar bandeiras e ter posições extremas mas não se trata disso, é sobre reconhecer um modo de funcionamento tão enraizado que sequer nos damos conta de porque as coisas são como são, onde há uma naturalização de abusos, violências e negligências ao feminino que nem questionamos. E cada vez mais acredito que desrespeitar o feminino é também ferir nossas crianças.

Quero falar das mães.

Tenho clareza de que o parto é uma travessia de alma e ter um filho é a abertura de um portal para uma mudança de consciência, que cabe a cada uma de nós escolher atravessar ou não. E me lembro dos meus primeiros momentos e dias me construindo como mãe. Porque ser mãe é se construir no dia a dia.

Nas primeiras semanas com minha filha, leia-se puerpério, esse tempo tão intenso e subjetivo que vai além dos teóricos 42 dias, tive o apoio operacional do meu marido, ele foi fundamental. Mas eu tinha um vazio que não conseguia nomear, eu tinha uma necessidade a qual não encontrava eco ao meu redor. Um dia, sentada no sofá olhando para o nada ele me perguntou “O que tu tem?” e eu só conseguia dizer “Não sei”. Ele não entendia como eu não poderia saber o que tinha, o que sentia, o que queria. Nem eu.

Hoje percebo que eu precisava de outra mãe. Não necessariamente a minha, que também se fez presente, mas que estava inundada pelo papel de avó, e ela merecia viver esse momento. Eu precisava de outra mãe que se conectasse comigo pelo olhar, que soubesse sem eu precisar dizer o que se passava na minha alma, que entendesse meu momento sem cobranças ou expectativas, que formasse uma rede de apoio nessa jornada por vezes tão solitária que é a maternidade.

Mães precisam de outras mães a qualquer tempo.

Mães precisam de outras mães que digam “te encosta um pouquinho que eu te abraço”.

Pode encostar. Seguimos juntas no próximo ano!

por Arieli Groff

Arieli Groff é mãe da Maitê e psicóloga, especializada em Luto Adulto e Infantil e Teoria do Apego. Idealizadora do Instituto Pirilampos voltado para maternidade e infância. autora e organizadora dos livros “Quando uma mãe nasce”, “Que medo é esse?” e “Toda mãe tem histórias para contar”.


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