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Arieli Groff

Nada mais materno do que as ambivalências

Existem duas condições, me parecem, serem inerentes a maternidade: a ambivalência e o luto

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Que mãe já não desejou fortemente ter um tempo para si e quando se viu com algumas horas disponíveis, não se pegou sem saber o que fazer? Quantas vezes desejamos férias, folga desse papel materno e todas as suas atribuições mas sequer conseguimos planejar uma atividade que não envolva os filhos?

A famosa fase “vai passar”, geralmente é dita como um consolo, um afago, ainda que seja sentida por muitas mulheres de forma desrespeitosa e até agressiva. Como acreditar que vai passar quando a privação de sono toma conta das noites, quando o cansaço impera e toma conta de todos os movimentos do dia? A sensação que se tem é de que tudo o que está sendo vivido será eterno. Vai passar o caramba!!!

Mas, eis que em algum momento as fases mudam, os desafios se tornam outros, o puerpério vai dando sinais de que está acabando, os filhos deixam de ser nossos bebês, crescem e vamos a cada dia nos tornando menos necessárias... O momento tão desejado de termos um tempo para nós mesmas chega e... Nos sentimos perdidas, com um estranhamento que nos impede de escolher se queremos trabalhar, ler, assistir série ou dormir, em uma tentativa ilusória, de colocar o sono em dia.

Quando nos percebemos, acabou a folga, os filhos estão em cena novamente e não fizemos nada do que há tanto sonhamos. Nos sentimos então frustradas, culpadas de não termos feito nada do que supostamente gostaríamos, com raiva de si mesma e tão cansadas quanto antes para seguir as atividades impostas pela maternidade.

Ambivalência e luto

Existem duas condições, me parecem, serem inerentes a maternidade: a ambivalência e o luto.

A maternidade nos apresenta a medos bobos e coragens absurdas, a cansaços extremos e motivação diária, a uma exaustão nunca antes imaginada ao mesmo tempo que nos coloca face a face com a força do amor, ao tão sonhado tempo livre e a dor de se perceber menos necessária com o passar das fases e dos dias...

Se deparar com o vazio deixado pelo crescimento dos nossos filhos, das escolhas mais autônomas que são capazes de fazer, com a preferência por estarem com os amigos a nossa companhia, por ficarem bem aos cuidados de outras pessoas que não nós, por caminharem com suas próprias pernas e a cada momento soltarem suas mãozinhas das nossas, nos faz vivermos um processo de luto.

Precisamos aprender agora a conviver com esses espaços, com essa ausência ainda que temporária e com hora para acabar. Mais que isso, precisamos aprender a nos reencontrarmos conosco, com essa atual desconhecida, precisamos  viver o luto daquela que já não somos mais, mas que ainda se apresenta como nossa maior referência.

Esse tempo, que na indecisão entre trabalhar, ver série ou dormir, acabamos por sentir a energia sendo drenada em não produzir nada, arrisco dizer que, nada mais é do que um tempo necessário para essa integração entre quem fomos, quem somos e quem estamos tentando descobrir que queremos ser.

Seja gentil com você, os vazios são os espaços deixados pelo que um dia já nos compôs, mas que talvez, de alguma maneira, já não nos seja mais tão necessário assim, tal qual nossa onipresença aos nossos filhos. Talvez, somente talvez.

por Arieli Groff

Arieli Groff é mãe da Maitê e psicóloga, especializada em Luto Adulto e Infantil e Teoria do Apego. Idealizadora do Instituto Pirilampos voltado para maternidade e infância. autora e organizadora dos livros “Quando uma mãe nasce”, “Que medo é esse?” e “Toda mãe tem histórias para contar”.


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