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Arieli Groff

O ócio infantil e o desespero dos adultos

A importância do tempo livre para o desenvolvimento da criatividade e de si mesmo

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Nesse período de férias escolares e em um pós-isolamento pandêmico (tomara, amém!), muitas famílias estão na contagem regressiva para a retomada das escolas, no cálculo 5/50, “dia cinco e contando” em alusão aos dias das crianças em casa. Obviamente esse tempo exige uma reorganização familiar, adaptação de rotinas, montar um quebra-cabeças que contemple a necessidade dos filhos e a realidade de mães e pais.

A questão aqui é que inevitavelmente irão ter momentos que o planejamento não vai dar conta, realidades vão se atravessar, horários vão conflitar, a criatividade vai ficar escassa, a paciência vai baixar, a irritação se elevar e o tédio se instalar. Seja para você mãe, para você pai, seja para seus filhos. 

Então, inicia-se uma guerra como quem combate um inimigo terrível, algo que não se pode permitir que faça visitas sequer esporádicas: o ócio infantil. Lembro com muito afeto das minhas férias da infância, onde os momentos mais felizes eram o de me sentir livre durante as tardes para criar o que a imaginação permitisse, pois durante quase três meses (sim as férias escolares eram maiores, lembra?) tinha a liberdade para ter tempo de ter tempo.

Em que momento passamos a enxergar o livre brincar como um problema?

O pediatra e psicanalista Donald W. Winicott já dizia que “o brincar promove o crescimento e, portanto, a saúde; (...) é no brincar, e apenas no brincar, que a criança ou o adulto conseguem ser criativos e utilizar toda a sua personalidade e somente sendo criativo o indivíduo pode descobrir a si mesmo.” Ou seja, o quanto ter momentos sem um planejamento prévio, recheados de “tem que”, são oportunidades para as crianças criarem o que ainda não está posto, seguirem o fluxo da sua imaginação e expressarem a si mesmas, em cada momento.

Crianças são experts em viverem em estado de presença, focadas no aqui e agora do que estão se propondo a fazer, diferente de nós adultos que vivemos presos ao que já passou ou fixados no que ainda não aconteceu, tentando controlar ao máximo possível os dias ainda desconhecidos, como forma de se proteger seja da ansiedade, da culpa, do medo, da perda do controle, da sensação de se ver impotente ou do receio de enxergar a si mesmo em um temido momento de tédio.

Dessa forma, tendemos a extinguir horas livres também dos nossos filhos, que vão sendo estimulados a estarem sempre ocupados e com isso vão aprendendo a fazer mais e mais de forma quase obsessiva e por vezes mecânica, se afastando do seu próprio sentir. Vão internalizando que controlar é necessário, e assim desaprendem a conectar-se consigo mesmos, deixando de intuir, imaginar e criar.

Que pânico é esse que desenvolvemos de estarmos no aqui e agora de cada momento?

Elizabeth Gilbert em seu livro “A grande magia” postula que viver criativamente é sobre levar uma vida mais motivada pela curiosidade do que pelo medo, que uma vida criativa é uma vida mais ampla, mas feliz e muito mais interessante e que viver dessa maneira, como quem trás à tona as joias escondidas dentro de si, é uma arte em si.

Que possamos deixar como legado aos nossos filhos, a possiblidade de serem autênticos, criativos, e de quebra, mais felizes! Que o ócio não seja um inimigo a ser combatido, mas um momento de conexão, recheados de possibilidades e de construção de tudo que ainda está por vir.

por Arieli Groff

Arieli Groff é mãe da Maitê e psicóloga, especializada em Luto Adulto e Infantil e Teoria do Apego. Idealizadora do Instituto Pirilampos voltado para maternidade e infância. Escreve sobre maternidade e infância todas as semanas aqui no Bella Mais.


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