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Arieli Groff

O momento dos filhos irem para a escola e a angústia materna

A entrada das crianças na vida escolar é também um processo de luto para as mães

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Tantas contradições, ambivalências, preocupações, expectativas e medos, tudo junto ao mesmo tempo e misturado. Assim é o coração e a cabeça de uma mãe prestes a viver o começo de um novo ciclo: a vida escolar dos filhos.

Lembro bem do dia em que, muito segura da minha decisão, pautada em um discurso muito coerente e convincente, fui visitar a primeira escola para minha filha. Era uma escola grande, que me pareceu ainda maior do que provavelmente era de fato. Quando entramos na quadra esportiva, onde seriam realizadas atividades recreativas e motoras, desabei a chorar. Meu marido me olhou e sem entender me questionou o que havia acontecido. Eu só consegui, entre soluços, responder “essa quadra é imensa.”.

Na mesma hora imaginei minha filhinha, sozinha, desamparada, desprotegida, sem a minha presença para socorrer na eventualidade de qualquer necessidade naquele vasto universo e imensidão de espaço chamado “quadra de esportes”. Como assim ela vai correr sem meus olhos atentos e meus braços estendidos para segurar quando cair? Como assim outra pessoa irá cuidar dela? Será que alguém vai ver se ela chorar? Como assim ela vai ficar horas infinitas separada de mim? Como assim ela ainda por cima, pode ficar bem sem mim?

A decisão de colocar nossos filhos na escola é uma linha tênue entre o desejo e o medo, entre o alívio e a dúvida, é passar a andar de mãos dadas com a possiblidade de tempo para um reencontro consigo mesma e o desespero de não saber o que fazer com tudo isso.

Quem sou eu sem ser mãe o tempo inteiro?

O início da vida escolar dos filhos, independente da idade em que ocorra, não é uma vivência amena para as mães. Por mais segura que se esteja da decisão, por mais necessidade que se tenha de ter onde deixá-los e quem cuide deles e por mais que se esteja exausta de se ver no papel de mãe por vezes em tempo integral, o dia em que de fato deixamos eles na escola, o momento derradeiro em que nos dão tchau e que não raro, sequer olham para trás, a exata hora em que percebemos que eles cresceram e estão indo para o mundo, abre em nós mães uma imensa cratera, quase tão grande quanto aquela quadra esportiva...

Nos habituamos a pensar no luto das perdas para a morte, no entanto, nossa vida está permeada de processos de luto, como os vivenciados com as mudanças de ciclos inerentes à passagem do tempo. Quando avançamos nas fases de transições ou presenciamos essas transformações em nossos filhos, uma realidade tal como era conhecida até então, fica para trás. Ao mesmo tempo que ganhamos novas possibilidades e oportunidades, perdemos a segurança do que já era conhecido. No mesmo instante em que nos orgulhamos das conquistas de nossas crianças, sentimos que nossos bebês não são mais tão pequenos assim e que a cada dia também são, um pouco menos nossos.

Ver os filhos crescerem é ter de lidar com a ferida que se abre em nós mães por nos percebermos menos necessárias do que imaginávamos ou gostaríamos de ser.  É ter de lidar com um reencontro a tempos esperado, mas ao mesmo tempo temido. Os filhos vão para a escola e é chegada a hora de termos espaço para convidarmos a nós mesmas para um tempo a sós, refazer planos, retomar projetos. O desejo e o medo ocupam espaço nesse vazio deixado pelo crescimento dos filhos, vazio tão imenso que é capaz de ocupar uma quadra de esportes inteira.

Mas aí já é assunto para um próximo texto.

por Arieli Groff

Arieli Groff é mãe da Maitê e psicóloga, especializada em Luto Adulto e Infantil e Teoria do Apego. Idealizadora do Instituto Pirilampos voltado para maternidade e infância. autora e organizadora dos livros “Quando uma mãe nasce”, “Que medo é esse?” e “Toda mãe tem histórias para contar”.


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