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Arieli Groff

O que ninguém me avisou

A romantização da maternidade é um desserviço às mães que não recebem os avisos necessários

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Que seria uma explosão de amor, um sentimento indescritível e que, no meu caso, o mundo ficaria cor de rosa, todo mundo falou. Disseram também que não era para eu pegar muito no colo porque iria deixar mal-acostumada, que era para já fazer dormir no bercinho dela desde o início ou depois não tiraria mais da minha cama e que, se não estivesse ganhando peso, era meu leite que poderia ser fraco.

O que ninguém me avisou era que eu não sentiria amor incondicional vinte e quatro horas por dia. Que, após o parto e nos anos iniciais que se sucederam, eu não saberia mais quem eu mesma era (quem disse que o puerpério dura 42 dias só pode ter sido um homem). Que eu teria vontade de chorar por tudo e por nada ao mesmo tempo. Que o tal instinto materno existe, mas não brota, é construído. Que eu teria medo de dar banho e cortar aquelas micro unhas logo que chegamos em casa. Que, em muitos momentos, minha filha se acalmaria mais em colos alheios do que no meu.

Ninguém me avisou de nada disso, mas eu senti tudo e mais um pouco, e quando isso aconteceu, me culpei, me senti a pior mãe que minha filha poderia estar tendo. Me senti inadequada e envergonhada de mim mesma, senti tristeza, raiva, ansiedade e alegria, quase simultaneamente, e me cobrei por isso também. Ninguém me avisou que sentir tudo isso igualmente fazia parte.

Me pego pensando o quanto se tornar mãe é viver permanentemente a dor do não saber e ser uma apostadora da vida. O quanto criar filhos é um ato de amor e também de fé. É viver com o coração na mão, como minha mãe dizia, e com a ansiedade em dia.

Ninguém avisa que, quando nosso filho se machuca, dói mais na gente do que nele, que existem choros com lágrimas e os sem lágrimas, que vai machucar quando outra criança não for bacana com nossa cria e vamos ter vontade de voar em cima. Que o coco vai do verde claro ao marrom escuro, então, nunca ouvi falar; e muito menos que eu iria esperar ansiosa a próxima fralda para analisar a nuance de cor e, com isso, me aliviar ou me preocupar mais. Ninguém conta que vamos chorar ao ver nossos bebês indo para escola, que vamos contar os minutos para voltarem e sentir saudade até enquanto dormem.

Ser mãe é apostar no futuro que se deseja sem saber como chegará, mas se empenhar diariamente para construí-lo. Quer mais ato de fé que esse? Desconheço.

Ninguém avisou que em meio a toda a desconstrução necessária para nos reconstruirmos como mães, viveríamos uma pandemia (tá ok, essa ninguém tinha como saber, estão absolvidos). Se a ansiedade já está sempre em dia na realidade materna, com essa vivência ela teve suas definições atualizadas. Ser mãe além de ato de fé, virou manifestação de coragem, atos de perseverança, cultivo da paciência, expressão da humildade e revisão constante de atitudes.

Ser mãe é andar permanentemente em uma montanha-russa, com loopings duplos e descidas radicais; é sentir uma brisa como se fosse um tsunami; é fazer de cada dia uma maratona a ser cumprida; é conhecer emoções e preocupações até então desconhecidas; é se perder de si mesma para se encontrar no olhar dos filhos; é ser capaz de amar ainda mais a cada dia que passa.

Ser mãe é perceber que o infinito existe, assume a forma do afeto, tem nome, sobrenome, o sorriso mais lindo do universo, o cheiro mais gostoso da galáxia e nos chama de mamãe.

 

Isso também, ninguém avisou. Ainda bem.

por Arieli Groff

Arieli Groff é mãe da Maitê e psicóloga, especializada em Luto Adulto e Infantil e Teoria do Apego. Idealizadora do Instituto Pirilampos voltado para maternidade e infância. Escreve sobre maternidade e infância todas as semanas aqui no Bella Mais.


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