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Arieli Groff

Paternidade ativa: precisamos falar seriamente sobre isso

O limite entre a valorização do pai e o alívio da culpa masculina

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Muito vem se falando, e algum movimento se percebendo, por uma paternidade mais atuante, participativa e presente. Diariamente surgem novos canais em redes sociais que fazem um grande e potente serviço para a ampliação dessa consciência e discussão.

Recentemente vem ganhando força um termo chamado “paternidade ativa”, para se referir a esses homens que vem ressignificando e reconstruindo os padrões de paternidade que tem internalizado e as referências paternas que receberam em suas infâncias.

Em um primeiro momento, pode até parecer mais um passo rumo ao fortalecimento do comprometimento masculino no papel de pai. Mas ao olharmos com mais atenção, talvez não seja exatamente assim que ocorra na prática.

Para se falar em paternidade ativa, haveria de ter a maternidade ativa.

Quantos pais ao “ajudarem” suas companheiras, com a chegada do filho, são chamados de “ótimos pais”, mas quantas mães são nomeadas como excelentes por fazerem muito além do básico. Dos homens espera-se o mínimo, das mulheres cobra-se o impossível; aos homens é dada a possibilidade de escolha e muitas vezes, o perdão pela omissão, às mulheres oferece-se o julgamento constante à custa de sua saúde mental e por vezes, física.

Diariamente, mulheres precisam se confrontar com questões as quais os homens em momento algum tem de lidar. Aposto com você: nenhum pai, com filhos pequenos, ao vivenciar uma entrevista de emprego, vai ser questionado sobre como é a rede de apoio dele e como pensa em se organizar na rotina com seu filho. Já as mães, mais do que serem sabatinadas acerca dessas questões, sentem na hora a exclusão, percebem na face de quem as entrevistas o ar de decepção que leva embora a oportunidade de trabalho.

Nenhum homem em seu momento de happy hour com os amigos ou do futebol semanal, tem de encarar questionamentos sobre com quem ele deixou os filhos, já as mulheres, quando conseguem ultrapassar a culpa, cobranças internas e  julgamentos externos e enchem-se de uma ousada coragem para terem um momento além de fraldas, leite, arrotos e cólicas, precisam frequentemente ter na ponta da língua a resposta sobre onde / com quem / o que afinal fizeram com seus filhos.

Na prática, a questão se faz justamente sobre qual o limite entre oferecer o comprometimento sem ter de abrir mão dos benefícios de ser homem. A conta não fecha se a mudança de fato não ocorrer para além das superfícies, se a conscientização e o auto conhecimento não acontecer para além de fotos em redes sociais.

Enquanto o discurso não sair de uma pequena bolha para ganhar vez nos encontros semanais aos quais os homens ganharam socialmente carta de alforria para tê-los, bem pouca coisa irá de verdade mudar. Mulheres seguirão sendo cobradas ao máximo, sentindo-se culpadas e pagando com suas saúdes, crianças seguirão precisando no futuro reconstruir em consultórios de terapia as referências paternas a que foram expostas.

Paternidade ativa não pode seguir sendo exemplo ou meta a ser alcançada, pois não é nada além de uma redundância machista, interesseira e cruel que segue oprimindo e desassistindo mulheres e seus filhos.

Seguimos juntas!

por Arieli Groff

Arieli Groff é mãe da Maitê e psicóloga, especializada em Luto Adulto e Infantil e Teoria do Apego. Idealizadora do Instituto Pirilampos voltado para maternidade e infância. autora e organizadora dos livros “Quando uma mãe nasce”, “Que medo é esse?” e “Toda mãe tem histórias para contar”.


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