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Arieli Groff

Perdas silenciadas também doem

A perda gestacional e o direito de chorar das mães

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Uma vez ouvi de uma paciente que a dor de perder um filho é tão aterradora que nem nome tem. Dor não se mede, não se compara, ela é única para quem a sente, mas para que possa ser chorada e vivida, precisa antes de tudo ser legitimada.

Temos em nossa sociedade a cultura dos rituais de despedida, como velórios e cerimônias de enterro, as quais cumprem a função de concretizar a notícia da perda, oferecer conforto e abraços à família e com isso, ser um fator que autoriza socialmente a vivência do luto por parte do enlutado.

Mas e quando as pessoas não vivenciam a concretude da perda? Quem chora esse vazio?

Em nossa natureza racional, precisamos de fatos e evidências para tornar real o que nos acontece. Quem ao receber a notícia da partida de uma pessoa querida, já não reagiu com um sonoro “não acredito / não pode ser verdade / está falando sério?”, até que com data, hora e capela marcados, tornamos real o mais temido dos encontros e da mais adiada certeza de nossas vidas.

Quando esse momento se torna inexistente, para muitos é uma notícia triste, mas para muitas mães é a impossibilidade de chorar suas dores, a ilegitimidade de viver suas perdas e a não autorização de transcorrer em seu luto.

As perdas gestacionais são vividas no mais íntimo espaço de cada mãe, onde ainda que ninguém mais acesse, o amor já habita e o vínculo se faz presente. A relação entre mãe e seu bebê começa a ser construída desde o momento em que a mulher se descobre grávida, ou até mesmo antes, já no imaginário e projeções tanto individuais como coletivas da constituição da maternidade.

O luto para ser vivido e ter a possiblidade de elaboração, precisa encontrar espaço para existir.

Muitas mães se veem abandonadas, desrespeitadas e até mesmo, emocionalmente agredidas em suas dores socialmente não reconhecidas. No intuito de ajudar e na crença de que é preciso dizer algo a qualquer custo, palavras atravessam corações em luto como flechas: “você é jovem, pode ter outro / que bom que já tem um filho / não era pra ser / menos mal que sua gestação estava no início ainda / força; calma...” Falas como essas, infelizmente, não são incomuns de serem ouvidas por mães que atravessam a dor de vivenciar a perda de suas gestações, de terem sonhos, desejos e futuros interrompidos.

Viver a perda de seu bebê carregado no ventre, instala em muitas mães o sentimento, por vezes confuso, da ambivalência, trás a ambiguidade de ser perceber portadora da vida ao mesmo tempo em que sua alma suporta a dor de ter a morte dentro de si.

Como se não bastasse, em cenários que deveriam acolher de forma genuína essas mães, são onde também acontecem a violência da invisibilidade das suas dores. Mulheres que passam por procedimentos clínicos após e em função da perda, precisam atravessar corredores de centros obstétricos, tendo os choros de bebês recém paridos como testemunhas. Mais uma desrespeitosa concretização do vazio que as habita. Mais uma vez, a presença doída da solidão de seus lutos.

Ainda que de forma privada, é fundamental que a perda possa ser ritualizada.

Dores não se comparam, mas choros silenciados, podem doer de forma ainda mais intensa. Não ter a autorização social e espaços para falar de sua perda como real, faz com que muitas mães vivam seus lutos de forma ainda mais solitária, silenciosa, sentindo-se por vezes abandonadas em suas emoções.

Quando todos transcorrem na vida portadores apenas de uma notícia triste, essas mães seguem como guardiãs da memória da breve existência de seus bebês. Nada pode ser mais real, legítimo e urgentemente, acolhido.

por Arieli Groff

Arieli Groff é mãe da Maitê e psicóloga, especializada em Luto Adulto e Infantil e Teoria do Apego. Idealizadora do Instituto Pirilampos voltado para maternidade e infância. autora e organizadora dos livros “Quando uma mãe nasce”, “Que medo é esse?” e “Toda mãe tem histórias para contar”.


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