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Arieli Groff

Quando as filhas se tornam mães

O parto transforma uma filha em mãe. E isso muda tudo. Para sempre

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Não lembro de ter sentido uma explosão tão grande de gratidão e amor como quando minha filha nasceu e durante as horas e dias que se seguiram.

Ficava apenas olhando para ela, como se o tempo tivesse parado só para eu viver aquele amor. E meu marido junto. Dois bobos que se revezavam em escala de sono para ter sempre um dos dois acordados em vigília, para garantir que ela respirava. Ah, os pais de primeira viagem....

Eu sentia gratidão por tudo que estava vivendo, pela família que se formava em suas primeiras horas de existência, pela entrega do meu marido e por tudo que estava naquele momento sendo transformado dentro de mim. Por alguns momentos, no entanto, outro sentimento me invadiu. Veio como uma necessidade urgente e da alma.

Um sentimento tão ambivalente, de ao mesmo tempo em que me sentia a mulher mais poderosa do universo, capaz de tudo, também me sentia a mais frágil, incapaz de tantas coisas. Dizem mesmo que ser mãe é passar a ter medos bobos e coragens absurdas. Atestei isso na própria pele e no meu sentir.

Essa vontade que tomou conta de mim foi a de querer a minha mãe por perto. A de querer ao meu lado a força de outro ventre, a sensibilidade de outra mulher, o toque e o cuidado de outra mãe, o olhar e colo, mas não de qualquer mãe, da minha mãe.

Meu marido percebia, mas não entendia. Ele observava, mas não sentia. Porque, simplesmente, tem coisas que foram destinadas a nós mulheres. O parto transforma uma mulher em uma leoa que descobre sua máxima força, o parir transforma uma filha em mãe. E isso muda tudo. Para sempre.

Segue-se sendo filha. Mas não mais a mesma filha. Segue-se sendo filha, mas uma filha mãe. Uma filha que olha para sua mãe como nunca antes. Que percebe nela as marcas de todas as renúncias, de todas as não escolhas feitas, de acúmulo dos sonos não dormidos, dos projetos deixados de lado, das roupas não compradas, das festas não aproveitadas, do choro não chorado e do amor ensinado.

A filha olha para a mãe e, em um segundo, entende tudo. Entende o que nunca foi dito, o que nunca foi falado, o que sempre foi vivido. 

Não lembro de ter sentido uma explosão tão grande de gratidão e amor...

por Arieli Groff

Arieli Groff é mãe da Maitê e psicóloga, especializada em Luto Adulto e Infantil e Teoria do Apego. Idealizadora do Instituto Pirilampos voltado para maternidade e infância. autora e organizadora dos livros “Quando uma mãe nasce”, “Que medo é esse?” e “Toda mãe tem histórias para contar”.


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