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Arieli Groff

Toda criança é dependente

Esperar ou exigir que uma criança seja independente é ir na contra mão do desenvolvimento infantil

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Vivemos uma sociedade que está sempre com pressa e focada em recortes de vida ostentados com filtros em redes sociais. Dificilmente estamos presentes naquilo que estamos fazendo no momento, ou o pensamento está preso no passado ou tentando controlar o futuro que ainda não chegou. Com isso, acabamos por atropelar nossos dias e por consequência de um jeito autômato, esperar e até mesmo exigir que as crianças funcionem nessa mesma rotação.

Muito se escuta, em forma de elogios e aprovações: “é uma criança muito independente; se vira sozinha; ai que amor como é independente; nem parece que tem criança em casa”, relacionando e exaltando uma criança que talvez esteja fazendo o que já sacou que os adultos esperam dela, para ter a chance de se sentir olhada, ou então, que já tenha desistido de solicitar ajuda, porque também já entendeu que não vai ser atendida em sua real necessidade infantil.

Entendamos e aceitemos: toda criança é por sua natureza, dependente. Somos os mamíferos mais dependentes dentre todas as espécies, como bebês, necessitamos do olhar, amparo e cuidado de um adulto cuidador e responsável para que nossa sobrevivência seja garantida. Somos gestados por noves meses do lado de dentro e mais nove meses do lado de fora, a chamada exterogestação, nosso cérebro segue se desenvolvendo até por volta dos vinte e cinco anos de idade, e nunca seremos totalmente independentes. Nunca.

Por que não somos seres independentes?

Somos seres dependentes ao nascer e interdependentes pelo restante da vida; somos seres sociais por natureza e precisamos do outro para sobreviver em qualquer idade. A solidão completa nos definha e nos atrofia, basta olhar as sequelas emocionais e psíquicas colhidas por conta do isolamento social em tempos de pandemia. Esperar que sejamos adultos independentes é ir no fluxo contrário da nossa natureza, desejar que crianças os sejam, é agressão e abandono afetivo.

Independência é diferente de autonomia

De forma geral, tendemos a usar o termo dependência de forma distorcida e equivocada, sendo na maioria das vezes referido de forma pejorativa e diminuindo as capacidades de quem recebe esse rótulo, especialmente as crianças, de quem se espera que vençam essa corrida competitiva e comparativa chamada desenvolvimento.

O que as crianças precisam de fato, é se sentirem apoiadas e acolhidas em suas necessidades, para que se instale nelas a percepção e sentimento de segurança interna e externa, seja física, psíquica e emocional, e dessa forma consigam se desenvolver de forma autônoma. Vamos entender como autonomia a capacidade de tomar decisões por si, ter oportunidade e espaço de se expressar de forma autêntica acerca de seus pensamentos e emoções, sentir-se capaz de cuidar de si e exercer poder sobre seu próprio corpo.

No entanto, para que uma criança se desenvolva de forma autônoma e se torne um adulto funcional com igual autonomia, é inegociável que ela seja olhada em suas reais necessidades, seja acolhida e não julgada em seus medos, não seja castigada por ser criança e tampouco punida por se expressar de forma livre. E entenda, não faço apologias à falta de limites, essa é outra grande confusão equivocada que fazemos de forma rápida.

Acolher uma criança em seus momentos mais difíceis é oferecer a ela a possiblidade de aprender a confiar no outro e em si mesma.

É sendo vista e se sentindo sentida que conseguirá ter a confiança e segurança necessárias para evoluir nas fases de desenvolvimento e atravessar cada uma delas de forma saudável. Amparar uma criança é compartilhar a mensagem que ela é amada em suas potencialidades e também na sua vulnerabilidade.

Independência é ilusão e é forjada na base do medo, desamparo e desrespeito, autonomia é sentir o fluxo leve da vida e só pode ser conquistada pelo afeto e amparada no amor.

Qual caminho você escolhe?

por Arieli Groff

Arieli Groff é mãe da Maitê e psicóloga, especializada em Luto Adulto e Infantil e Teoria do Apego. Idealizadora do Instituto Pirilampos voltado para maternidade e infância. autora e organizadora dos livros “Quando uma mãe nasce”, “Que medo é esse?” e “Toda mãe tem histórias para contar”.


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