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Camila Saccomori

Aulas ao ar livre: uma opção a se considerar quando as aulas retornarem

A jornalista Camila Saccomori, nossa colunista de assuntos materno-infantis, fala da proposta de várias cidades mundo afora

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Crianças são 25% da população mundial. E então veio a pandemia e todas ficaram sem aulas. Em alguns países, as escolas já abriram novamente as portas (com os cuidados aqueles que estamos cansados de saber). No Brasil, ainda não há consenso sobre como deve ser esse retorno - e se deveria ocorrer apenas após a chegada da vacina. Um meme circula por aí trazendo graça com toque de realidade, mostrando o filho que volta pra casa usando a máscara de um coleguinha.
Seja qual for a sua opinião sobre o assunto e seja lá quando for que as escolas voltem mesmo, eis uma ideia que pode fazer sentido: aulas ao ar livre.
Não é nada novo, na verdade: 100 anos atrás, escolas foram para áreas externas para evitar propagação da tuberculose, um mal devastador. Assim, evitava-se a concentração de pessoas em locais fechados para que não houvesse aumento na transmissão. Como bônus, o ensino em espaços abertos ainda ajudava a ensinar responsabilidade com a natureza. Em época de fake news negando a existência até de aquecimento global, parece oportuno mostrar às novas gerações como cuidar do meio ambiente, não é mesmo?
Vários países da Europa aderiram na época. E também agora. Muitas cidades já estão promovendo aulas ao ar livre, como Turin e Roma, na Itália, e diversas outras na Índia e Estados Unidos. Aqui no RS, o clima instável poderia ser um fator surpresa. Mas a bem-vinda primavera acabou de chegar. Praças, parques e clubes seriam as alternativas para instituições feitas só de cimento e sem nenhuma grama.
Aliás, Murilo Gun - professor de criatividade - tem um TEDx fenomenal sobre as escolas sem nenhum verde. Ele alerta que há muita semelhança entre indústrias, quartéis, prisões e escolas. Filas, toque de sino, hora do intervalo = rigidez. Assista: "Escolas Matam a Aprendizagem", no YouTube. Talvez a pandemia pudesse ser a mola propulsora para uma pequena-grande reinvenção.

Você lembra de ter alguma aula ao ar livre?

Você lembra de alguma aula ao ar livre quando era criança? Eu tive uma única - e lembro em detalhes até hoje. Fomos à horta das freiras no colégio católico em que estudei no Ensino Fundamental. Ao longo de todos os outros anos, seguimos o confinamento entre paredes. Até os esportes eram no ginásio abafado e barulhento.
O contato de muitas crianças com a natureza é insuficiente. E está mais do que provado que atividades ao ar livre ajudam a promover uma infância mais saudável e plena.
Na prática, como promover o uso de espaços públicos na retomada das aulas presenciais, caso ocorram antes da chegada da vacina? O programa Criança e Natureza, com apoio de entidades como o Instituto Alana, criou um documento com orientações (download aqui). ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Há um consenso sobre a necessidade de se fazer um planejamento rigoroso e intersetorial, envolvendo protocolos administrativos, pedagógicos, sanitários e com a participação de toda a comunidade escolar. A sugestão do documento é que órgãos estaduais e municipais responsáveis por parques e praças integrem as comissões intersetoriais que organizam a construção dos protocolos para a volta às aulas, contribuindo com a disponibilização de áreas públicas para acolhimento dos estudantes.
Sim, operacionalmente há vários pontos para pensar. E o banheiro? E a hora do lanche? E a segurança para nenhuma criança sumir das vistas? A logística é grande. Parece um sonho distante ou será que vamos testemunhar a realização destes planos com nossos filhos algum dia?
 

por Camila Saccomori

Camila Saccomori é mãe da Pietra e jornalista especializada em Primeira Infância. Escreve conteúdos para famílias no projeto @vamoscriar. A cada 15 dias, compartilha no Bella+ dicas para criação de filhos e temas contemporâneos da parentalidade.


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