capa
Camila Saccomori

Crianças com 5 anos de idade entrando no Ensino Fundamental: ( ) sim ou (x) não?

Camila Saccomori traz o ponto de vista do comportamento para comentar a nova lei no RS


publicidade

Aos 45 minutos do segundo tempo em 2019, foi sancionada uma lei que permite a matrícula de crianças de cinco anos no Ensino Fundamental no RS. Parte da nova regra entra em vigor já neste ano letivo de 2020. 

Vou me abster de discutir política e tudo o que está por trás de uma decisão destas. Escrevo sobre & para famílias com crianças e vou me deter no viés dos nossos filhos. Sou jornalista especializada em Primeira Infância e tenho conhecimento e noção para comentar o tema (mas também recorri à minha rede e chamei reforços que você vai ler a seguir). Além disso, passei pessoalmente por esta experiência como mãe de uma menina que entrou com 5 anos na primeira série.

O fato é que este projeto aprovado pelo governo estadual impacta muito além do que podemos prever na vidinha dos nossos filhos. Nas redes sociais da @VamosCriar, o assunto virou Gre-Nal. Muita gente comemorando a decisão, mas também muitas pessoas preocupadas. Aqui abro meu voto junto com mais dois pesquisadores do tema. 

ENTENDA O CASO

Até 2019, a legislação determinava que apenas alunos com seis anos completos ou que atingem essa idade mínima até 31 de março podem ser matriculados no 1º ano do Ensino Fundamental. Agora, conforme o texto aprovado no Estado, crianças que irão completar seis anos no decorrer do ano letivo também poderão ser entrar. O novo ponto de corte passa a ser 31 de maio. Na teoria também, a criança ser avaliada conforme sua maturidade e o desejo dos pais.

O QUE DIZEM OS EDUCADORES

“É um equívoco gigante”, opina a pedagoga Cris Vieira, doutora em Educação, fundadora da Code: Escola de Inteligências Livres. “Estamos adiantando um processo que já está mostrado em pesquisas. Não tem como uma criança chegar madura do ponto de vista emocional, cognitivo, biológico, fisiológico e socialmente pronta para encarar as rotinas do primeiro ano nessa idade. Se com 7 já é difícil! E essa antecipação acaba tendo um impacto também no aspecto cognitivo e de aprendizado, pois o emocional corresponde a 75% das questões cognitivas”. 

“Faço um apelo ao bom senso dos pais”, afirma Paulo Sergio Fochi pedagogo e doutor em Educação pela USP, professor na Unisinos. “Esse tempo de vida das crianças, dos 0 aos 6 anos, já é bastante reduzido para a média de vida que temos hoje e precisa ser muito bem considerado sobre como as crianças estão vivendo a infância delas. A criança de 5 a 6 anos ainda tem uma necessidade muito grande de brincar e experimentar, de estar com os amigos, muito maior do que de formalizar processos e conceitos no ensino regular, que ela vai ter mais 12 anos, no mínimo, pela frente para fazer isso. É na Educação Infantil que será permitido esse momento com respeito, dar sentido para o mundo que ela está chegando. Não devemos antecipar etapas com as crianças, para que não cheguem ao quarto ano já exaustas de escola, como tem ocorrido com frequência.”

Assista o depoimento de Paulo na íntegra: https://youtu.be/-RdLQoE3m24 

MINHA EXPERIÊNCIA PESSOAL

Pietra entrou com 5 anos no Ensino Fundamental, pois nasceu de 28 de março, quase ali no ponto de corte. Não tinha escapatória. Completaria 6 e nem tinha como repetir o último ano da escolinha infantil. Escolhi o colégio por seu grande pátio, arborizado, muitos brinquedos, clima de praça. Pensava em como uma menina cheia de energia ficaria tanto tempo sentada quieta na aula. A ideia era "compensar" a tal imobilidade com um belo recreio e convívio com os colegas. O uniforme voltava sujo (sinal de que a infância está sendo bem aproveitada).

Havia dificuldade em certos pontos que exigem mais maturidade. Organizar o próprio material, por exemplo, e se adaptar às tantas atividades alternadas - português, matemática, inglês, música... Chegar em casa e repassar o que foi ensinado, a disciplina do tema de casa… 

Várias vezes minha filha reclamou de ser a mais nova da turma (ainda que pela altura e pelo aprendizado esse detalhe não ficasse evidente). Já sabia todas as letras e os números, mas estamos falando além da alfabetização. É comportamento, é emoção, é vida.   

Agora, rumo à quarta série aos 8 anos, quando muitas crianças estão indo recém para o segundo ano, digo que ela "pegou no tranco". Você que chegou até o fim deste texto é porque obviamente tem interesse no assunto e/ou dúvidas. Espero que a gente tenha ajudado a fazer você tomar sua decisão. A infância já é muito curta! Qual o sentido de entrar mais cedo? Para se formar mais cedo? Que vida acelerada é esta que estamos ditando aos nossos filhos? ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

Como pais e mães, nossa missão é garantir aos pequenos uma infância plena respeitando o processo de desenvolvimento humano. Queimar etapas não deveria fazer parte do pacote.

por Camila Saccomori

Camila Saccomori é mãe da Pietra e jornalista especializada em Primeira Infância. Escreve conteúdos para famílias no projeto @vamoscriar. A cada 15 dias, compartilha no Bella+ dicas para criação de filhos e temas contemporâneos da parentalidade.


compartilhe