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Camila Saccomori

Lixo digital: tem coisa mais #tensa que a Momo por aí

Camila Saccomori alerta sobre vídeos do app da moda que trazem conteúdos impróprios para crianças

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Quem tem filhos pequenos ou convive com crianças ouviu falar da Momo neste ano de 2019. Eram vídeos de música infantil, desenhos ou tutoriais de slime que, lá pelas tantas, mostravam uma boneca medonha falando de suicídio ou ensinando atos violentos. Muita gente denunciou no YouTube Kids (plataforma com classificação indicativa de conteúdo para menores de 8 anos), a monstrenga aparentemente sumiu do www e agora estamos livres para sempre desta ameaça. Ufa! 

Mas não é bem assim. Lamento informar que há coisas tão absurdas e bizarras quanto a Momo aqui pertinho (ao alcance de um dedo dos curiosos representantes da Geração Alpha). Está na moda hoje em dia entre as crianças em idade escolar um aplicativo chamado GACHA LIFE, que permite criar os próprios personagens em anime e compartilhar com amigos. Dá para customizar todos os detalhes, das características físicas até roupas e acessórios. Com o auxílio de outro app, a gurizada faz vídeos de pequenas histórias e insere balões de diálogo. Depois é só subir no YouTube e esperar os likes.

Muitas destas "novelinhas Gacha" são realmente inocentes e divertidas. Alguns míni-filmes falam de amizades, família, moda e música. Só que na imensidão do YouTube-não-kids é difícil filtrar o que é bom e o que é podre (especialmente para nossos filhos em desenvolvimento). Com a reprodução automática de um vídeo atrás do outro, em sequências de poucos minutos, abre-se uma porta para outro universo Gacha. Escuro, pesado e perverso.  

Tem novelinha Gacha "24 horas no cio".

Tem Gacha "Meu lobo pervertido”.

Tem Gacha "Grávida aos 14 anos".

Tem Gacha "A garota que se apaixonou pela morte".

Tem Gacha falando de abuso sexual, tem Gacha psicopata, tem Gacha incesto ("Me apaixonei pelo meu irmão"). Tem Gacha zumbi que sai matando todo mundo que vê pela frente. Isso tudo em Português mesmo. É simplesmente surreal!

A onda de vídeos Gacha veio dos Estados Unidos. Foi lá que surgiu, na época da Momo, a campanha #ProtectOurKids. Grupos monitoram e denunciam cenas como tráfico humano, tiroteio e ameaças de morte inseridas em desenhos comuns como míni-filmes gravados em cenários de Minecraft. Mas nenhum esforço é suficiente para a faxina. 

O que se conclui de tudo isso? 

Denunciar vídeos impróprios é importante e todos devemos colaborar imediatamente, mas na prática é como lavar louça. Assim que você termina, já começa a acumular mais. Coisas impróprias jamais vão deixar de existir no mundo digital. Como pais, só temos uma saída: é FUNDAMENTAL o acompanhamento próximo e contínuo não só em relação ao tempo de uso das telas, mas sim dos conteúdos pelos quais nossos filhos estão interessados. Do contrário, no meio da janta ou no carro voltando da aula, vem aquele tipo de pergunta que você nem sabe por onde começar a responder. (Isso se você tiver a sorte do seu filho estar conversando com você em vez de estar com a cara enfiada no celular justamente vendo esse tipo de lixo digital). 

P.S.: Mães criaram uma petição para tirar vídeos Gacha do ar.

por Camila Saccomori

Camila Saccomori é mãe da Pietra e jornalista especializada em Primeira Infância. Escreve conteúdos para famílias no projeto @vamoscriar. A cada 15 dias, compartilha no Bella+ dicas para criação de filhos e temas contemporâneos da parentalidade.


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