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Camila Saccomori

O que é fundamental saber sobre crianças de 5 anos no Ensino Fundamental

Camila Saccomori discute as consequências neurológicas de antecipar o ingresso da criança no Ensino Fundamental


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Na contramão de uma decisão do Supremo Tribunal Federal, o Rio Grande do Sul aprovou lei que determina a matrícula de crianças de 5 anos no primeiro ano do Ensino Fundamental. Na coluna da semana passada, abordei o assunto com opiniões de educadores e a minha experiência como mãe. O texto ficou entre os mais lidos do site (e segue repercutindo), o que mostra que estamos preocupados com o impacto deste nada pequeno “detalhe” na vida dos nossos filhos. Não se trata apenas de um ano a mais, um ano a menos. O que todo pai e toda mãe precisa saber é:

A) Você não é obrigado a matricular seu filho de 5 anos no primeiro ano do Ensino Fundamental. Repito: você não é obrigado. Mesmo! De verdade.

B) A neurociência tem inúmeros argumentos e resultados de estudos que dão embasamento para você usar na hora de colocar o Item A em prática.

Antes de explicar o item B, uma definição acessível: a neurociência se fundamenta no estudo sobre o sistema nervoso e suas funcionalidades. É a área que pesquisa os processos de desenvolvimento do ser humano em todos os aspectos. A primeira infância (dos zero aos 6 anos) é o período mais importante de todos. O que acontece nesta fase é pré-determinante para os anos seguintes. E o ingresso da criança no Ensino Fundamental terá impacto nas reações futuras dela em seu progresso na vida. 

Convidei a neuropsicóloga Luciana Schermann Azambuja, da Nasce Saúde, para fazermos uma síntese. Sou fã do trabalho sério da Luciana, que atende e avalia crianças com dificuldades de aprendizagem e pesquisa temas como Desenvolvimento Neuropsicomotor, estimulação precoce, autismo e TDAH, entre outros. Vamos aos pontos fundamentais:

1) O cérebro do seu filho não está maduro o suficiente

A entrada na escola não deve estar relacionada apenas ao potencial cognitivo. “Ah, mas meu filho sabe todas as letras e os números”, dizem os pais. Não! Para estar no primeiro ano, é preciso maturidade emocional. Uma criança de 5 anos ainda não tem. Isso porque emoção e aprendizagem estão interligadas. Quem foca só nos aspectos da racionalidade pensa no QI (coeficiente intelectual), mas a ciência já provou a importância da inteligência emocional para o sucesso pessoal.  

O embate atual é entre usar os primeiros anos de ensino da criança para atividades lúdicas (que estimulam os pequenos a reconhecerem sua identidade e se interessarem em aprender sobre o mundo) ou para estimular o aprendizado conteudista. Muitas vezes, erroneamente, explica Luciana, “a inteligência de uma criança é medida pela sua capacidade de ler e escrever cada vez mais cedo. E esta precocidade é o que a levaria, em linha direta, ao êxito profissional". No entanto, não é bem isso o que acontece com todas as pessoas.

2) A carga horária exige muito das crianças no primeiro ano

Ainda está para nascer criança de 5 anos que escolha passar horas sentada olhando para a frente na sala de aula (nosso modelo escolar tradicional). Elas até conseguem por um tempinho. Mas é novamente a maturidade emocional que define isso. Um aluno de 5 anos irá prestar atenção no máximo por 30 minutos em uma tarefa específica. Aos poucos, bem aos poucos, vai evoluindo até 45 minutos. No máximo chegará a uma hora de atenção (e olhe lá). Parece pouca diferença de tempo, mas imagina isso numa tarde inteira. 

3) A psicomotricidade ainda não está 100%

Questões de motricidade impactam muito no desenvolvimento cognitivo. As habilidades motoras finas são desenvolvidas já na educação infantil através de diversas atividades que facilitam a escrita. É a partir dos 6 anos que a criança começa a apresentar mais habilidades para a caligrafia, por exemplo. Aqui neste link, um estudo completo sobre psicomotricidade no processo de aprendizagem. 

“Em termos neuropsicológicos, as crianças estão totalmente prontas para a alfabetização aos 7 anos. Antes disso, precisa da Educação Infantil para desenvolver a coordenação motora e as habilidades sociais”, explica Luciana. 

De acordo com estudos, a fase de alfabetização infantil é um ciclo que começa aos 6 anos e termina aos 8 (o "ápice" ocorre entre 6 e 7). A antecipação dos processos de alfabetização e letramento pula etapas importantes no desenvolvimento da criança, como coordenação motora e capacidade de raciocínio e concentração. “Estas capacidades têm um desenvolvimento gradual. E as crianças podem apresentar diferenças neste processo, o que exige o envolvimento da equipe escolar e dos pais”, completa Luciana.

4) O emocional do seu filho pode ficar abalado

Sentir-se incapaz de compreender o que está sendo ensinado pode gerar várias situações negativas, como dificuldades de adaptação, problemas de auto-estima e até quadros depressivos. A criança sente que não conseguiu satisfazer às expectativas dos pais. “Os pais acham que o filho está pronto e que estão facilitando ao antecipar um ano da trajetória escolar, mas esta crença infantil de ‘não ser capaz’ poderá persistir até a vida adulta”, explica Luciana Azambuja. 

A neuropsicóloga comenta ainda que são comuns os casos de evasão escolar nos anos seguintes por conta de quem foi muito exigido antes de estar pronto. Ao estimular precocemente a leitura e a escrita, a criança pode sofrer problemas como deficiências na coordenação motora, apatia, desinteresse, desmotivação e estresse.

Percebem como está tudo interligado? 

Vamos seguir falando no assunto até todos tomarem conhecimento. Compartilhe com quem precisa se informar também.

por Camila Saccomori

Camila Saccomori é mãe da Pietra e jornalista especializada em Primeira Infância. Escreve conteúdos para famílias no projeto @vamoscriar. A cada 15 dias, compartilha no Bella+ dicas para criação de filhos e temas contemporâneos da parentalidade.


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