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Madeleine Muller

A economia circular e a moda: mudança de mindset

Madeleine Muller lembra que precisamos consumir menos e pensar melhor nossas escolhas

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Desde a Revolução Industrial temos vivido um modelo de economia linear, que pode ser resumido pela expressão “extrair, transformar, descartar”. Parece óbvio que isso precisa mudar com urgência face à degradação ambiental e ao acúmulo de resíduos crescente nesse modelo insustentável, que não faz uso eficiente dos recursos, lembrando que os mesmos não são infinitos!

E o que a moda tem a ver com isso? A pegada ecológica da indústria da moda é imensa e vai além do uso de matérias-primas, pois seus processos utilizando químicos no tingimento e no tratamento dos têxteis, são responsáveis por cerca de 20% da poluição das águas, citando apenas um dos impactos negativos. Mas não basta acusar a indústria quando todos somos responsáveis a partir do momento em que demandamos mais e mais produtos.

Ou seja, ao comprar mais uma camisetinha ou mais uma calça jeans, que talvez você nem esteja precisando, você está fazendo a roda da economia girar para alguém lucrar, mas certamente a natureza ficará com a conta negativa. E você com mais um boleto e mais uma peça se acumulando no seu guarda-roupa! Precisamos consumir menos e pensar melhor nas nossas escolhas, fazendo uma mudança de mindset, e adotar um modelo de economia circular. Mas afinal, o que é economia circular?

A economia circular é um conceito estratégico que se assenta na redução, reutilização, recuperação e reciclagem de materiais e energia. Ela se materializa na minimização da extração de recursos, maximizando sua reutilização, aumento de eficiência e desenvolvimento de novos negócios.

Estendendo a definição para o mercado da moda, as práticas de produção e de consumo nesse novo sistema (que não é tão novo, pois já se fala nisso desde os anos 70) devem envolver a utilização de roupas por mais tempo, bem como sua reciclagem e reutilização com maior frequência. Só assim se diminui o desperdício e os prejuízos que a indústria causa ao meio ambiente.

Não vamos deixar de comprar nossas camisetinhas e nossos jeans, mas talvez possamos nos dar conta de que não precisamos de tanto. Com pequenas ações como usar ao máximo o que temos, reciclar, customizar, praticar o upcycling, reutilizar, compartilhar o uso, e doar, ao invés de mandar para o lixo, podemos contribuir para um consumo mais consciente, evitando o descarte precoce de peças que demandaram muitos recursos para serem feitas e que ainda poderiam ser aproveitadas. É o que acontece com as roupas que vão parar nos brechós: elas têm uma segunda chance de uso!

A famosa velejadora britânica Ellen MacArthur, que deu a volta ao mundo em 2005 conquistando um recorde mundial, compreendeu a importância de reutilizar todos os recursos disponíveis em suas viagens solitárias, ao perceber que eles eram limitados. Ela é um dos rostos da economia circular e vem se dedicando a divulgar essas práticas através de sua fundação, a Ellen MacArthur Foundation.

Há dois anos, ela chamou a atenção da mídia em geral ao apresentar o relatório “A nova economia têxtil: Redesenhando o mundo da moda”. Lançado no dia 28/11/2017 no museu londrino Victoria & Albert, a velejadora teve o apoio e a parceria da estilista Stella McCartney, conhecida ativista por uma moda mais limpa, justa, sem matérias-primas de origem animal e com menos impactos ambientais. A fundação defende o conceito de economia circular, para manter os produtos em seu mais alto nível de utilidade o tempo todo e com menos desperdício.

Diante dos problemas apresentados pelo relatório, a conclusão é de que se não houver mudança nos hábitos de consumo e de produção, a indústria da moda vai gastar um quarto de todo o orçamento global anual de carbono até 2050!

Para quem acha que isso é exagero, seguem alguns dados divulgados através do relatório:

- O equivalente a um caminhão de lixo cheio de resíduos têxteis é desperdiçado a cada segundo, indo para aterros ou sendo incinerado.
- Menos de 1% das roupas é reciclada e transformada em outra roupa.
Um valor estimado de US$ 500 bilhões é perdido a cada ano em razão das roupas que são pouco usadas e raramente recicladas.
- A lavagem de roupas é responsável por jogar meio milhão de toneladas de microfibras de plástico no oceano todos os anos; isso é o equivalente a mais de 50 bilhões de garrafas plásticas.
- A indústria têxtil usa fontes não-renováveis (98 milhões de toneladas no total por ano), incluindo óleo para produzir fibras sintéticas, fertilizantes para cultivar algodão e materiais químicos para produzir fibras e tecidos.
- A produção têxtil (incluindo o cultivo de algodão) usa cerca de 93 bilhões de metros cúbicos de água por ano.

Para finalizar, deixo aqui o vídeo criado pela Ellen MacArthur Foundation para demonstrar como a economia circular pode nos ajudar nessa transição não só para uma moda mais sustentável, mas também para um mundo possível para nós e para as gerações futuras.

Fonte: Ellen MacArthur Foundation  

por Madeleine Muller

Madeleine Muller é produtora, professora no curso de Design de Moda da ESPM, stylist e mãe da Alexia e do André. Pesquisa o consumo consciente da moda e é autora do livro Admirável Moda Sustentável. Escreve quinzenalmente para o Bella Mais. Acompanhe seu dia a dia pelo Insta: @Madi_muller


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