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Madeleine Muller

Como enxuguei meu guarda-roupa

Madeleine Muller dá dicas para fazer a limpa no seu closet

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A cada ano que passa eu olho para o meu guarda-roupa e percebo que ele tem muito menos itens, e eu muito mais espaço! Cada vez compro menos roupas mas sinto que tenho muito mais, não pela quantidade, mas pela qualidade.  Aprendi a olhar uma vitrine de coisas lindas e saber dizer a mim mesma “não preciso” ou “não quero” (que são coisas completamente diferentes), não perco mais tempo escolhendo meus looks, uso o que tenho e não me preocupo se vou estar “estar na moda” ou não. Não que eu não esteja atenta, trabalho nesse meio, mas achei mais fácil e econômico criar meu estilo próprio - mas nem sempre fui assim!

Fazendo deste espaço um confessionário, situo minha vida como consumidora em dois momentos: antes do Rana Plaza e depois do Rana Plaza. Não vou me repetir sobre esse desastre em 2013 envolvendo a indústria da moda e a escravidão escondida nas oficinas e fábricas terceirizadas nos países asiáticos (agora também nos africanos), mas quem quiser pesquisar e se aprofundar na tragédia que vitimou 1.133 trabalhadores e mais de dois mil feridos ou mutilados, vai encontrar milhões de informações no Google. Exploração, aliás, é o que não falta neste mundo. Na moda também.

Minha questão aqui é outra, é aquele momento em que a gente se dá conta do que está acontecendo longe dos nossos olhos, nosso despertar para uma vida mais consciente dos grandes problemas que afetam a todos, de alguma forma: antes disso acontecer, eu simplesmente não sabia e não pensava nisso, sempre trabalhei no meio da moda, conhecia algumas fábricas daqui, ocasionalmente entrava numa linha de produção, mas não via nada de errado, aparentemente. Já aconteciam alguns problemas trabalhistas, eu sabia por alto, mas nada comparado ao que viria a partir dos anos 90 com a aceleração da produção de moda e a chegada das grandes redes de fast fashion.  

Eu não imaginava as condições de trabalho das pessoas que faziam aquelas roupas, pressionadas a costurar e produzir por centavos como pagamento por cada peça, por falta de opção! Era isso ou a miséria absoluta...que tristeza! E eu até então comprava meus modelitos alegremente, feliz com as pechinchas que encontrava, muitas vezes até duvidando que algo pudesse custar tão pouco. Era barato para mim mas tinha custado sangue, suor e lágrimas de alguém lá do outro lado do mundo que eu não via e sequer sabia da existência. Alguém ou muitos alguéns que tinham colocado suas mãos habilidosas naquelas peças antes que elas chegassem às minhas. Era tentador ter roupas estilosas a baixo custo, mas eu já me questionava como as fast fashion conseguiam aqueles preços tão baixos.

Explico: sou do tempo em que roupa era algo valioso, feita para durar e passava de um irmão para o outro, muitas vezes até por gerações. As coisas custavam caro mas tinham qualidade, e ninguém jogava fora suas roupas (fora? Onde é fora?), elas eram cuidadas e preservadas pois não existia esse hábito de trocar o guarda-roupa a cada estação, se algo rasgava ou se deteriorava por algum motivo, havia sempre uma costureira na família ou no bairro que resolvia o problema. Se o calçado estava gasto, trocava-se a sola, ou recuperava-se a cor na sapataria. Tive botas que duraram décadas sendo consertadas, mas de repente apareceram roupas e calçados tão baratos que não valia a pena pagar o conserto: mandava-se o “velho” embora e comprava-se um item novo. E mais um, e outro, e assim surgia uma acumuladora desavisada, que transformou a área de serviço da casa em depósito de tralhas e pechinchas compradas num impulso, numa liquidação ou para compensar algum vazio. Uma recompensa, talvez. Alguém se identifica?

Também fiz compras quando estava deprimida, quando levei pé na bunda, quando estava descontente com a vida, sem me dar conta de que aquela compra me trazia uma felicidade momentânea, ou nem isso. Pendurava a peça no armário e esquecia dela, com a etiqueta, inclusive. Passavam-se meses, anos, e eu lembrava da peça me perguntando: por que diabos comprei isto? Não comprava muito, mas comprava o que não precisava e nem queria. Comprava para algum cliente, porque estava barato, para ir numa festa futuramente (e esse futuro nunca chegava, nem a tal festa), porque poderia ser usado numa produção (grande desculpa!), porque era uma peça “de acervo” (stylists entenderão), ou até por ter me apaixonado mesmo. BUT, as paixonites passam, como todas as mulheres bem sabem. E aí aconteceu o Rana Plaza, e eu me liguei: algo mudou em mim a partir dessa percepção e comecei a entender o que era essencial e o que não fazia mais sentido. A primeira coisa que assumi para a minha vida desde então foi viver com menos. E posso assegurar a vocês: sou bem mais feliz e organizada com menos roupas!

Como montar um armário mais enxuto:

Dica 1: categorizar

Para começar a enxugar seu closet, seja prática e busque os itens importantes. Quais roupas você usa com mais frequência? E os calçados? Os que não estão em uso precisam ser repensados: Vale a pena guardar? Estão em bom estado? Há algo que precisa de reparos? Estão servindo? Roupas de trabalho, roupas de academia, roupas de festa, inverno, verão, itens permanentes...crie suas categorias para facilitar a organização. Isso ajuda a ver melhor (até para lembrar o que se tem) e entender o que está sobrando ou faltando.

Dica 2: separar

Depois de olhar o que tem, separe em três pilhas diferentes: "manter", "talvez" e "doar". Na hora de separar, pergunte a si mesma: "eu usei essa roupa ano passado?" “Isto me serve?”  Porque não adianta você ter algo que está ali ocupando espaço sem uso, que não te representa mais, esperando que você emagreça, ou que volte à moda, etc.etc. Dá trabalho porque ativa alguns gatilhos emocionais e mexe com outras questões internas nossas, mas é necessário e temos de enfrentar!

Dica 3: dizer adeus

Doe as roupas para instituições de caridade, venda para brechós, customize, participe de feiras de troca, reaproveite ou recicle. Se tiver alguma roupa desgastada, não jogue no lixo. Resíduos têxteis merecem uma destinação melhor do que o aterro sanitário, elas podem ter uma sobrevida se houver um olhar empático para cada peça, prolongando o fim de sua vida útil. Aquilo que você não quer mais poderá servir e fazer a alegria de outra pessoa. Roupas usadas ou “velhas”, não são lixo, elas só viram lixo se você não souber dar a destinação correta.

São dicas simples mas funcionam, dá preguiça, sim, mas a satisfação alcançada é maior. O guarda-roupa ficará mais leve...e a vida também!

Até a próxima!

por Madeleine Muller

Madeleine Muller é produtora, professora no curso de Design de Moda da ESPM, stylist e mãe da Alexia e do André. Pesquisa o consumo consciente da moda e é autora do livro Admirável Moda Sustentável. Escreve quinzenalmente para o Bella Mais. Acompanhe seu dia a dia pelo Insta: @Madi_muller


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