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Madeleine Muller

Descubra os comportamentos que vão influenciar a moda em 2020

Madeleine Muller fala sobre os movimentos de comportamento e consumo que vão guiar a criação e estratégias nesse ano


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Neste primeiro post de 2020 é inevitável observar as tendências anunciadas pelas mais diversas plataformas de pesquisa, bureaux de estilo, boletins de inteligência, coolhunters, trendsetters , consultores de mercado e todos os arautos de novidades que se espalham pelas redes. E por que? Para entender os movimentos que levam o mundo para frente, e fazer nossas próprias escolhas e caminhos captando as possibilidades que estão surgindo, na moda e em outros segmentos. Em algum momento, as coisas se conectam e começam a fazer sentido. Há muitos sinais apontando determinadas direções de comportamento, algumas podem se confirmar, outras estão em processo de, e há ainda as que ficam só na previsão.

Paco Rabanne causou espanto ao prever, na década de 90, que o fim do mundo, segundo seus estudos de Nostradamus, seria no dia 6 de agosto do ano 2.000, mas cá estamos, duas décadas após a previsão não-concretizada, sãos e salvos. Ou não. Talvez o mestre espanhol naturalizado francês tenha apenas errado a data, mas não o fato em si, se pensarmos nos desastres ambientais e nas alterações climáticas, que ameaçam a vida no planeta. Dados, algoritmos, análises e mais análises podem apontar uma tendência, ou várias, mas as certezas só aparecem no momento dado, na situação e no contexto em questão, e se confirmam quando algumas variáveis se juntam, o que, convenhamos, torna bem complexo esse cenário do vir- a -ser, pois no fundo, parte disso já é, seja por cerne, reflexo ou desdobramento. As coisas não surgem do nada, é preciso estar atento ao chamado espírito do tempo, Zeitgeist, em alemão, e ele reflete bem a sociedade em que vivemos, e como vivemos.

Novos desafios - e oportunidades! - estão à frente. Num apanhado geral, espiando aqui e ali, percebemos que, das cinco principais tendências emergentes dos consumidores para este ano, três delas têm a ver com o bem-estar e a consciência. E elas incentivam tomadas de decisão, tanto de produção quanto de consumo, no sentido de analisar as mudanças para criar/consumir novos produtos, serviços, campanhas, marcas e experiências. Mais do que isso: é entender que o consumo com propósito, buscando estratégias para aliviar as pressões da vida moderna e das redes sociais, será o objetivo de muita gente, já exausta do bombardeio consumista e querendo dar mais atenção a sua saúde mental e emocional, combatendo o esgotamento da vida agitada que a maioria de nós vive. 

Os drivers para 2020:

1. Pressão verde

Em 2020, os consumidores passam do status ecológico para a vergonha verde e a sustentabilidade vai se impor como mecanismo para alívio da culpa, trazendo hábitos de consumo mais engajados em aspectos sociais e ambientais. Um exemplo recente é o da Cia Aérea KLM pedindo aos seus consumidores que voem com responsabilidade e pensem duas vezes antes de comprar uma passagem aérea, como forma de reduzir a emissão exagerada de CO2.

2. Avatares da marca 

As marcas assumem uma nova e poderosa forma humana, através da criação de personagens criados digitalmente, fazendo com que as vejamos como um de nós, e podendo nos relacionar com elas, como já fazemos com alguns assistentes virtuais, que falam e interagem conosco nas redes. O que prova que a inteligência artificial já está se tornando mais acessível, veja-se a Magalu (Magazine Luiza), além das conhecidas Siri (Apple) e Alexa (Amazon).

3. Design Metamórfico

Aqui a customização e a personalização são levadas a outro patamar. Os consumidores exigem relevância como um serviço, e demandam por produtos e serviços que se modifiquem na medida em que suas expectativas e necessidades mudem. A marca japonesa de cosméticos Shiseido já possui um serviço de beleza por assinatura onde fornece cremes específicos para a pele da cliente, bastando que ela envie selfies diárias a fim de serem analisadas para se chegar à fórmula ideal para aquele tipo de pele, naquele momento.

4. Burnout

O burnout é o stress levado a um nível insuportável. Marcas inteligentes correm para ajudar aqueles que estão esgotados pelas pressões da vida moderna, estimulando-se os negócios que saibam lidar com a saúde mental dos consumidores. O Observatório de Sinais, escritório de tendências situado em São Paulo, acrescenta exemplos como espaço para inovações digitais –quem sabe a oferta de atendimento terapêutico on line? Ou a produção de objetos que ajudem a lidar com o stress do dia-a-dia? Outro exemplo é a adoção de causas pelas empresas, como o Setembro Amarelo, mês da prevenção ao suicídio, levando informação e suporte aos funcionários para enfrentarem essas questões sem que isso se torne um tabu no ambiente profissional. Essa tendência corrobora o movimento wellness, ou bem-estar, que já vem da década passada, e confirma a preocupação da Organização Mundial de Saúde que, em 2019, reconheceu o Burnout como síndrome crônica ligada ao trabalho e que deveria ser observado pelas empresas. Nesse caminho, a Microsoft do Japão está testando uma semana de quatro dias de trabalho com resultados iniciais já comprovando uma maior produtividade.

5. Mídia Civil

O futuro do social são as conexões significativas. Menos futilidades e mais relevância! Ou seja, as interações nas redes serão pautadas pela qualidade das conexões, não pela quantidade. Não é por acaso que a rede social inglesa The Night Feed está fazendo o maior sucesso entre mulheres que estão amamentando, com algo bem simples: conectar as que queiram trocar experiências/informações à noite, após os bebês dormirem, discutindo temas de seu interesse, principalmente a volta ao trabalho, tema sensível para todas as mulheres que tentam conciliar a maternidade com a vida profissional.

E o que essas tendências todas têm a ver com a moda? Tudo! O encerramento de uma década promete transformações para a próxima, onde veremos o fortalecimento da economia prateada (+60), dos localtivistas (ativistas da produção local, o que podemos traduzir para slowfashion) e da geração M (jovens millenials com influência muçulmana), lançando as bases para um novo capitalismo, chamado de comunitário, e que começará a crescer na medida em que a economia compartilhada atingirá um status tal onde o acesso às roupas prevalecerá sobre a posse. Guarda-roupa compartilhado, brechós, aluguel, armário cápsula, roupateca com serviços por assinatura...

A gente já falou bastante sobre isso em 2019, então estamos só começando....

Que possamos vestir mais causas, não só roupas, em 2020!

por Madeleine Muller

Madeleine Muller é produtora, professora no curso de Design de Moda da ESPM, stylist e mãe da Alexia e do André. Pesquisa o consumo consciente da moda e é autora do livro Admirável Moda Sustentável. Escreve quinzenalmente para o Bella Mais. Acompanhe seu dia a dia pelo Insta: @Madi_muller


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