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Madeleine Muller

Mais essência, menos tendência!

Nossa colunista Madeleine Muller questiona se estamos consumindo moda da forma consciente

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O título com que abro esta coluna pode até parecer chavão, mas o fato é que, durante muito tempo, ultrapassado o estágio de pudor, proteção e adorno, nos vestimos para dizer quem somos, ou queremos ser. Moda é autoexpressão e comunicação, o mundo nos “lê” através de nossas roupas. Certamente seremos sempre julgados pelas aparências, queiramos ou não, gostemos ou não.

Quem nunca se sentiu reprovado ou medido dos pés à cabeça ao entrar num ambiente formal, sem seguir o dress code? Elegância é adequação, tem a ver com o momento, o local, o contexto e as variáveis culturais. Você não irá ao casamento de alguém vestindo branco, porque convencionou-se que branco é a cor da noiva nas sociedades ocidentais, mas estaria liberado para usar essa cor na China, onde as noivas casam de vermelho. Mera questão de tradição, que está ligada aos costumes, e é bom estar atento a isso quando vamos a eventos em outros países com culturas diferentes da nossa.

Ao frequentar as famosas semanas de moda, também existe um Dress Code, e nem sempre ele é muito claro:  volátil, muda a toda hora. Escolha a roupa “errada” ou “datada” e você já é excluído sumariamente do front row (aquela primeira fila dos desfiles disputada a tapas por influencers, diabas que vestem Prada, Chanel, Dior e muito street style de luxo, sentindo que você não faz parte do clubinho dos fashionistas porque nenhum fotógrafo te olhou, talvez por você não estar vestindo a cor do ano decretada pela Pantone, ou porque você resolveu fugir da padronização de tendências e optou por um look autoral, atemporal e local, tingido com pigmentos naturais, feito na sua cidade mesmo, por algum novo designer, ou quem sabe recuperado em um bom garimpo vintage nos brechós mais descolados, pedindo por uma segunda chance. Ou ainda porque você ousou repetir esse look em vários eventos ao invés de aparecer com uma roupa nova, daquela marca que dá acesso ao universo dourado das it-pessoas? Como se uma marca pudesse validar quem você é, para que você se sinta incluído?! Não, você não precisa ter para ser!

Há uma completa inversão de valores na nossa sociedade, onde as pessoas consomem para serem consumidas - ou aceitas -  sem se dar conta de que não consumir não é escolha. “Consumo, logo, existo” é a subversão máxima da lógica cartesiana. Consumimos o tempo inteiro, muitas vezes sem necessidade nem motivo, sem pensar. Compramos porque está barato, porque estamos deprimidos, para compensar uma falta, ou porque estamos viciados em compras. E vamos acumulando e preenchendo vazios. E descartando para comprar mais, porque o que temos nunca parece ser o suficiente. Reconhecer o suficiente é um ato de extrema sabedoria e autocontrole: nem mais nem menos, apenas o necessário. De quanto se precisa para ser feliz e se sentir abundante?

Esperem aí...já não temos coisas demais nas nossas vidas? Posts demais? Compras demais? Compromissos demais? Roupas demais? Selfies? Excesso de exposição? Ostentação? Há um excesso de tudo e uma falta do que é realmente essencial, estamos vivendo um ciclo acelerado de destruição dos recursos naturais, o consumo em demasia nos fez descartar e poluir em níveis exorbitantes, que estão comprometendo nossa sobrevivência no planeta e, principalmente, a das gerações futuras.

E o que a moda tem a ver com isso? Bem, ela é considerada a segunda maior poluente do mundo, perdendo apenas para a indústria do petróleo.. As discussões são longas, profundas e necessárias. É o que queremos discutir neste espaço, buscando consumir menos, mas melhor, com menos tendências e mais essência!

por Madeleine Muller

Madeleine Muller é produtora, professora no curso de Design de Moda da ESPM, stylist e mãe da Alexia e do André. Pesquisa o consumo consciente da moda e é autora do livro Admirável Moda Sustentável. Escreve quinzenalmente para o Bella Mais. Acompanhe seu dia a dia pelo Insta: @Madi_muller


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