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Madeleine Muller

Moda com tradição e histórias para contar: um texto escrito a muitas mãos!

Madeleine Muller fala sobre o trabalho inspirador de Érica Arrué e Lu Bulcão


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Tenho duas amigas designers que me inspiram muito. A que eu conheci primeiro foi a Érica Arrué, cuja marca Aurora fez parte do meu estudo de caso sobre moda sustentável em Portugal, há exatos cinco anos. A segunda foi a Lu Bulcão, da Dona Rufina, cuja identificação foi imediata, e lembro que todas estávamos em alguma etapa dos nossos mestrados nessa época. Nosso encontro não foi por acaso. Desde que nos conhecemos, nossas afinidades e crenças numa moda mais responsável, transparente e boa para as pessoas e o planeta, tornou-se nossa bandeira. Nossos valores e amor pelas tradições, pelos conhecimentos e técnicas que temos aqui no Rio Grande do Sul, nos uniu, fortaleceu e nutriu, uma à outra. Somos de cidades do interior, e cada uma de nós vivenciou particularidades nas suas regiões, - a saber Dom Pedrito, Bagé e Livramento- que acabamos trazendo para nossas atividades, seja nos negócios, seja na docência de moda.

Assumindo que a cultura de um povo se expressa, dentre outras formas, por meio de crenças, saberes e costumes, os mesmos podem ser deslocados e reinterpretados num produto de moda. Ainda nesse contexto, a geração de valor de um produto tende a ser renovada a cada instante, no âmbito estético, com o exclusivo fim de proporcionar produtos continuamente inéditos de signos distintos. Ao nos trazer valores implícitos, para além de roupas e acessórios, a moda retrata amplamente aspectos culturais de um povo, e, por conseguinte de seu território. Como é sabido, num passado não muito distante, era através do fazer local e dos processos artesanais que muitos povos disseminaram sua cultura num processo de transferência geracional.

No pampa gaúcho, mais precisamente nas cidades de Bagé e Dom Pedrito, não foi diferente. Foi através de um sistema rudimentar, onde o fazer à mão era a única alternativa para a produção das vestes, que a Lu Bulcão, da marca de bolsas e acessórios Dona Rufina, e a Érica Arrué da Aurora, foram criadas. Netas de tecelãs, aprenderam desde pequenas, as técnicas manuais que envolviam a matéria prima lã, onde mente e alma misturavam-se intrínseca e ancestralmente na confecção de produtos de moda pelas mãos de suas avós. Só isso já dá uma história linda, né? Eu, que só sei tricotar mantinhas e não herdei os talentos da minha mãe e avós, cresci antes das minhas amigas na fronteira com Rivera, com muitos Burmas* à venda no comércio fronteiriço, rivalizando com as produções têxteis nacionais. Minha mãe só tricotava nossas roupas com lã gaúcha, comprada no comércio local. O pai sempre dizia que tínhamos de valorizar o que era nosso. Nossos produtos, nossa cultura, nossa lã. “O dinheiro precisa circular aqui”, dizia ele, e tinha toda a razão.

A lã, fibra natural, renovável e biodegradável, exerceu bastante importância para a economia do estado do Rio Grande do Sul nos anos 1970 e 1980, meus anos de criança e início de adolescência, porém a industrialização dos processos do vestuário e a entrada dos tecidos sintéticos no mercado nacional, na década de 1980, foram responsáveis por uma queda abrupta da comercialização de fibras naturais, como lã, linho e seda. Hoje, com o aumento dos processos produtivos que seguem os conceitos do slow fashion, os consumidores estão se voltando para marcas que valorizam o trabalho local e que carregam história e identidade em seus produtos. Com isso, a lã está sendo, pouco a pouco, reinserida no mercado da moda por suas características como matéria-prima natural.

Por esse motivo destaca-se a importância da lã, como matéria-prima, para a perpetuação cultural e a identidade regional através da capacitação de novas gerações, mantendo em foco a consciência sobre a íntima relação da lã com a sustentabilidade e os anseios de preservação ambiental, por ser um material natural e de alta durabilidade, renovável e biodegradável, que oferece isolamento térmico.  

A Aurora vem construindo um projeto social sólido e reconhecido ao praticar uma cadeia produtiva limpa e responsável e ao devolver às mulheres rurais o protagonismo produtivo do lanifício, impactando diretamente a ovinocultura no Estado. Produzindo fios artesanais com tingimentos vegetais, leva o trabalho de mais de 20 artesãs, de diferentes regiões, para o cenário global e contemporâneo do design e de moda.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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Na mesma direção a Dona Rufina concentra sua produção artesanal do feltro das suas bolsas no pampa gaúcho, com artesãs locais. Extremamente talentosas, as artesãs também fornecem a lã, oriunda dos rebanhos de suas propriedades rurais. O processo de lavagem, cardagem, fiação e tingimento é todo artesanal e sustentável. Cuidados estes que foram fundamentais para a conquista do certificado de produto sustentável Europeu emitido pela Friend of the Earth Criteria for Sustainable Fashion. Que orgulho, hein Lu?

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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E como eu escrevi lá no título, esta coluna foi escrita a seis mãos por três gurias do interior:

Érica Arrué

Lu Bulcão

Madeleine Muller


Para saber mais sobre as marcas @sigaaurora e @donarufinadesign, acesse as redes sociais e valorize o design e os produtos do Rio Grande do Sul. 

*Burma é uma marca uruguaia criada em 1956 e famosa até hoje por suas malhas.

 

por Madeleine Muller

Madeleine Muller é produtora, professora no curso de Design de Moda da ESPM, stylist e mãe da Alexia e do André. Pesquisa o consumo consciente da moda e é autora do livro Admirável Moda Sustentável. Escreve quinzenalmente para o Bella Mais. Acompanhe seu dia a dia pelo Insta: @Madi_muller


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