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Madeleine Muller

RGloor desfila na BEFW em parceria com os calçados e bolsas da Dona Rufina

Não se trata só de roupas!

Madeleine Muller traz os destaques da Brasil Eco Fashion Week, que ocorreu em São Paulo

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Um lugar para debater ideias sobre sustentabilidade na cadeia têxtil e de vestuário, a fim de fomentar plataformas para a colaboração e transparência na moda, discutir a diversidade e a descentralização nas equipes, pensar na economia afetiva, no ativismo como ferramenta de transformação, aprender técnicas de tingimento natural, conhecer o novo varejo e os modelos de negócio para a moda consciente, entre outros assuntos. Foi o que se viu e ouviu nos três dias da Brasil Eco Fashion Week, em sua terceira edição, realizada de 16 a 19 de novembro em São Paulo.

Houve demonstração especial de teares Huni Kuin, por duas mestras indígenas, vindas do Acre, enfatizando a importância dos saberes e dos fazeres manuais do povo que é guardião das nossas florestas, muita troca de ideias, experiências e vivências. Marina Silva e Christiane Torloni levantaram a bandeira do ativismo ambiental na abertura do evento e empolgaram a plateia.

Um resumo? Não é só business, não! O mundo precisa de outros valores, não necessariamente os monetários. Tem que ter o pilar econômico para o desenvolvimento sustentável, mas não a custa dos outros, o ambiental e o social. Colaboração, empatia e um olhar mais humanizado por e para quem trabalha na indústria são fundamentais. Moda é sobre pessoas e sua cultura, identidade e história. Não é só sobre roupas.

Mas é claro que as roupas também estavam lá: além do showroom com mais de 60 marcas de todo o país, a BEFW também foi palco de 19 desfiles. Entre as marcas que se apresentaram, algumas já são habitués: a paraibana Natural Cotton Color, lançando seu jeans sustentável e naturalmente colorido, o selo de upcycling da Comas, a diversidade da Ahlma, de André Carvalhal, e novidades como a multimarcas consciente Bemglô, de Glória Pires e Betty Prado, a biblioteca de roupas Roupateca, e talentos autorais como Ronaldo Silvestre, Helena Pontes e Eneas Neto.

Como boa gaúcha, não posso deixar de destacar a forte presença das marcas do Rio Grande do Sul, tanto nos desfiles como no showroom. Contextura+Studio10, RGloor+Dona Rufina e Nuz Demi Couture mostraram na passarela o melhor da moda consciente produzida no estado, com autoria e liberdade de expressão, sem padronização de tendências, traduzindo seu compromisso com a ética de olho na estética, afinal, não basta o critério ecológico, design é fundamental e a moda sustentável também tem de ser linda e atrativa...nesse quesito, as gurias mandaram muito bem!

A arte vestível da Contextura em parceria com os calçados Studio10 / Agência Fotosite

A modernidade líquida da Nuz Demi Couture  / Agência Fotosite

A gauchada esteve em peso expondo seus produtos no que ficou conhecido como a “rua dos gaúchos”, que era o corredor onde a maioria das marcas do Rio Grande do Sul tinham seus stands, tudo muito colaborativo e com aquele espírito de união, de quem já aprendeu que não se faz nada sozinho. Além das marcas já citadas, a “bancada gaúcha” dividiu o chimarrão com Envido, Apoena, Insecta Shoes, Brisa Slowfashion, Design Cotê, Aurora, Céu Handmade e Rico Bracco.

Para as amantes de produtinhos de beleza animal cruelty free, o Espaço Beleza tinha cosméticos veganos, orgânicos e naturais. Dentre as várias instalações educativas, uma exposição de agrofloresta têxtil, apresentada pela startup FARFARM, e a presença de uma curadora internacional de marcas, representante da Milão Fashion Week também foram destaque na programação.

Atrações não faltaram, público também não. Casa lotada com cerca de 2,5 mil visitantes diários e uma sede de conhecimentos latente. As novas gerações estão muito interessadas em vestir causas nas quais acreditam. Levar informações e provocar uma reflexão é o começo de tudo, para chegarmos a um entendimento do que é essa nova moda, que possui tantas denominações, todas no fundo dizendo a mesma coisa. Moda sustentável, consciente, ecológica, ética, slow. Os termos são importantes para comunicarmos o novo momento da moda e identificarmos linhas de ação.

Mas para além das definições, as responsabilidades pedem união de forças, e atuação em rede. A moda é um sistema complexo, e seus impactos, assim como suas tendências, influenciam o mundo todo: 10% das emissões globais de gases estufa são atribuídos a esse setor, 1/4 dos produtos químicos produzidos anualmente são usados na produção de tecidos, 170 milhões de toneladas de resíduos têxteis são geradas por ano (dados do Sebrae, com baixíssimo reaproveitamento ou reciclagem) e 20% da contaminação hídrica mundial é associada à produção de moda.

Mesmo se os números divergirem de uma pesquisa ou levantamento para outra, a reação da sociedade diante desse cenário já está acontecendo. Movimentos em prol da sustentabilidade e da promoção de um consumo mais consciente estão na pauta do dia. Para gerarmos soluções em grande escala, as ações devem ultrapassar o segmento da moda sustentável e envolver novos protagonistas, dentro e fora do setor, inclusive com campanhas e incentivos por parte dos governos e demais stakeholders. A eco-revolução que desejamos será sistêmica e intersetorial, mas ela começa com cada um de nós, nas chamadas microrevoluções diárias, com as pequenas ações.

E você, já está repensando seus hábitos de consumo de moda?

por Madeleine Muller

Madeleine Muller é produtora, professora no curso de Design de Moda da ESPM, stylist e mãe da Alexia e do André. Pesquisa o consumo consciente da moda e é autora do livro Admirável Moda Sustentável. Escreve quinzenalmente para o Bella Mais. Acompanhe seu dia a dia pelo Insta: @Madi_muller


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