capa
Madeleine Muller

O Diabo não veste mais Prada, veste plástico

Você já se perguntou sobre a origem (e o destino) das roupas que usa?

publicidade

Você sabia que o Diabo não veste mais Prada? Isso foi em 2006, quando lançaram o filme e ninguém falava muito nos impactos que o nosso estilo de vida, a produção e o consumo excessivos provocam no meio ambiente. “O Diabo veste Prada” foi um sucesso de bilheteria num momento em que prestávamos mais atenção na beleza da moda através das revistas e das passarelas, do que nas montanhas de lixo têxtil que já se acumulavam. O PETA já fazia barulho desde os anos 80 em defesa dos animais e contra o uso de peles, mas no geral, pouco se ouvia sobre ética, justiça no trabalho, sustentabilidade e consumo consciente. Com a globalização e a abertura de mercados, a ordem era produzir e consumir, as fast fashion estavam a todo vapor e demorou até esses temas ganharem a atenção da mídia. Certamente o terrível desastre do Rana Plaza ocorrido em 2013, foi o despertar de muitas consciências para os reais impactos da indústria da moda, e também o início do movimento Fashion Revolution, conhecido mundialmente por sua luta por uma moda mais justa, transparente e responsável.

O que acontecia nos bastidores desta grande e poderosa indústria, ficava longe dos nossos olhos. Só víamos o lado estético, as aparências e o glamour. Verdade seja dita, é muito difícil não ser seduzido pela moda e pela sensação de pertencimento e de poder ao se ter acesso às marcas que admiramos. Ao vesti-las, nos sentimos no topo, somos admirados, reconhecidos e (per)seguidos, nos transformamos em it-girls & boys, altamente “instagramáveis”! Porém, há muito mais por trás dessa história: O Diabo já vestiu Prada, sim, mas agora ele veste plástico - e o oceano, infelizmente, também! 

“O Diabo Veste Plástico” é uma série de 3 vídeos curtinhos da estudante portuguesa Ana Maria Dinis, vale conferir! Os três estão aqui:

 

 

 

Esse plástico todo não está só nas garrafas PET, nos canudinhos, nas sacolas de supermercado e outros artefatos jogados às toneladas nos rios, mares e oceanos: ele está presente nas nossas roupas e sapatos!

É muito provável que você tenha roupas sintéticas no seu armário, aquelas feitas com poliamida, nylon, elastano e poliéster, muito comuns na indústria têxtil. Pois tais tecidos são todos plásticos, produzidos a partir de um polímero, que vem de uma fonte não renovável e altamente poluente, o petróleo. E o plástico decorrente das lavagens das roupas, feitas desses tecidos sintéticos, vai parar nos rios e oceanos nas versões micro e nano, somando-se a todo o lixo que já lá está, não digerível e não biodegradável, a ponto de os cientistas afirmarem que, muito em breve, teremos mais plásticos nos oceanos do que peixes. Vale lembrar que se os peixes engolem plásticos, através da cadeia alimentar, nós também estamos, por tabela!

Há muitos impactos ambientais e sociais associados ao vestuário, tanto na produção como na fase de uso e no descarte, e se pouca gente lê na etiqueta a composição de suas roupas, a maioria sequer imagina por quem e em quais condições elas foram feitas. Mas essa pergunta deveria acompanhar cada compra onde investimos nosso dinheiro. Roupas são valiosas, a palavra investimento surgiu a partir delas, como moeda de troca e de penhor: houve um tempo em que dívidas eram pagas em vestimentas, daí a palavra.

Então, como nossa segunda pele e memórias vestíveis, as roupas valem principalmente porque já demandaram muitos recursos naturais, energéticos, hídricos e pessoais para serem feitas. Não podem ser simplesmente jogadas fora- até porque não existe “fora”. E já que a indústria massiva facilitou a obtenção de produtos de moda acelerando os processos de fabricação e o uso de materiais sintéticos em detrimento das fibras naturais, é preciso evitar a compra dessas peças descartáveis, de baixo valor e qualidade, que só alimentam o círculo vicioso de comprar, usar pouco e descartar.

Vestindo Prada ou Plástico, o diabo terá menos roupas:  a questão que se coloca é a da redução do consumo, como condição para o desenvolvimento sustentável, e isso só se consegue mediante entendimento entre produtores e consumidores, com mudanças culturais baseadas na educação para um consumo mais consciente. A transição para uma moda mais sustentável e com menos impactos não depende só da indústria e seus fabricantes, ela começa quando entendemos que todos somos agentes de transformação social e ambiental, e que podemos também vestir uma causa: as mudanças começam com cada um de nós!

 

por Madeleine Muller

Madeleine Muller é produtora, professora no curso de Design de Moda da ESPM, stylist e mãe da Alexia e do André. Pesquisa o consumo consciente da moda e é autora do livro Admirável Moda Sustentável. Escreve quinzenalmente para o Bella Mais. Acompanhe seu dia a dia pelo Insta: @Madi_muller


compartilhe