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Madeleine Muller

Qual é a roupa mais sustentável do mundo?

Madeleine Muller fala sobre as roupas que já temos e questiona: precisamos de mais?

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Se você ficou em dúvida mas pensou em algo ecológico ou reciclado, acertou em parte, mas a melhor resposta seria: A QUE JÁ EXISTE! Sim, pois ela já demandou muitos recursos para ser feita, desde as matérias-primas até o gasto com água, energia, sem falar no custo humano através do trabalho das pessoas envolvidas ao longo de toda a cadeia produtiva, a distribuição até chegar ao ponto de venda, etc. São custos que vêm embutidos e não são vistos pelo consumidor, mas estão ali. Roupas valem muito, e elas trazem consigo as histórias das pessoas que estão por trás delas. É só no conto da Cinderela que elas surgem pela magia de uma única fada-madrinha, viu? As roupas fazem um longo caminho e passam por muitas mãos até chegarem às nossas.

Porque a moda é feita por pessoas, para pessoas! É preciso criar empatia e sentido de valor ao que vestimos, protegendo nosso bolso de compras desnecessárias ou sem significado, podendo investir em outras experiências. Aliás, as melhores coisas da vida não são coisas! E antes que me acusem de não apoiar o comércio ou o crescimento econômico, aviso que não sou contra o consumo: eu luto contra o consumismo!

Ninguém aqui está dizendo para você não comprar mais nada, mas para pensar bem na sua próxima aquisição. Antes de ir ao shopping, faça uma análise cuidadosa do que já tem no armário e questione se precisa de mais um sapato, mais um vestido, mais uma bolsa. Precisa mesmo? Ou é só mais uma tentativa de se sentir “incluída”? De dizer ao mundo quem você é ou quer ser? De se compensar por algum vazio existencial? E essa compra faz sentido mesmo ou é para usar só uma vez e depois esquecer no armário? Isso ocupa espaço, dando a falsa impressão de termos muitas opções quando, na verdade, não usamos nem um terço do que está pendurado. E o resto não serve direito ou não combina entre si. E no fim a gente acaba sempre usando as mesmas coisas. Então por que seguimos comprando mais e mais??

Você não será validado por uma grife. A compra de um must-have da estação não vem com a felicidade de brinde, por mais desejada seja a marca escolhida. Aliás, nenhuma delas tem esse superpoder: é você quem tem de SER, antes de ter. E quando comprar, que seja o melhor produto que puder pagar, feito de forma ética, com respeito ao meio ambiente e em condições dignas para os trabalhadores. Como sempre menciono, roupas custam recursos naturais, energéticos, financeiros e humanos, não podem ser descartáveis! Por essa razão, busca-se um consumo de moda mais sustentável, para um desenvolvimento econômico duradouro, que respeite as pessoas e o planeta, num esforço mútuo entre fabricantes e consumidores, os quais deverão saber (ou reaprender) a comprar, usar e descartar adequadamente seus pertences, com equilíbrio e sem excessos.     

Ilustração: Francisco Mesquita

Comprar menos mas melhor, escolhendo bem, como já pontuou a estilista Vivienne Westwood, usando o máximo de tempo possível, esta é a fórmula! Já não temos o suficiente em nossos guarda-roupas, para usar pelo resto da vida? Se conseguirmos manter ou atualizar nossas roupas através de upcycling, cuidados básicos, reparos, trocas, investindo no que realmente é necessário, deixaremos de acumular tanto. Teremos mais espaço e peças atemporais, com qualidade, para usar muito e não jogar fora. Fora? Onde é isso? Não existe fora, não é mesmo? 

E antes de nos preocuparmos com o que está na moda - conceito tão complexo quanto volátil nesses tempos líquidos, de profusão de comportamentos, estilos e possibilidades estéticas -, há muitas formas de consumir moda: nem sempre precisamos ter a posse, às vezes basta o acesso. Já experimentou um Air Bnb ou um Uber? Ambos resolvem problemas de moradia e locomoção sem que a gente precise ter um apartamento ou um carro. Economia compartilhada também funciona para a moda! Podemos alugar e compartilhar roupas, por exemplo, ou ter uma guarda-roupa bem enxuto, com poucas peças, mas coordenáveis entre si, para fazer o milagre da multiplicação de looks: o armário-cápsula! Isso sem falar nos brechós, bazares, feiras de rua e troca-troca entre amigas. Além de divertido e econômico, é o tipo do consumo que não prejudica o planeta e também não perde o charme nem o estilo.

A roupa mais sustentável do mundo é a que já existe. Você não precisa comprá-la, ela está lá no seu armário. Ressignifique as suas e seja mais feliz com menos!

por Madeleine Muller

Madeleine Muller é produtora, professora no curso de Design de Moda da ESPM, stylist e mãe da Alexia e do André. Pesquisa o consumo consciente da moda e é autora do livro Admirável Moda Sustentável. Escreve quinzenalmente para o Bella Mais. Acompanhe seu dia a dia pelo Insta: @Madi_muller


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