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Madeleine Muller

Que tendência você quer vestir este ano?

Madeleine Muller reflete sobre os comportamentos que vão impactar a moda em 2020

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O feriadão passou. E lá se foi o Carnaval, os desfiles das escolas de samba e também os desfiles das passarelas internacionais, com seus lançamentos (os que foram possíveis de realizar, em tempos de corona vírus) para a alta-costura e o prêt à porter, no chamado quadrilátero da moda (NYC, Londres, Milão e Paris).  As tendências 20/21 que os fashionistas tanto esperam (as micro, que definem estilo, e que vivem mudando, alternando, num vai-e-vem constante), trouxeram um pouco de tudo, e nada ao mesmo tempo.

São apenas roupas, mais roupas, infinitas roupas para decidirmos se atualizamos o que já temos com alguns toques ou se teremos de vestir a tendência da vez para sermos aceitas ou admiradas. Mais franjas? Street Style misturado com alfaiataria de luxo? Roxo com amarelo e uma pitada de pink. De novo?  E o gen-z yellow? E o rosa millenial? Ficaram démodé??? Será que terei de comprar a cor do ano da Pantone (classic blue, caso queiram) pra ficar moderna e mostrar que estou por dentro?? Essa era a moda que estávamos acostumados a acompanhar, ou a seguir, como preferem alguns. Mas até a moda precisa se reinventar, face aos novos tempos.

Hoje eu gostaria de falar com vocês sobre os modos, os jeitos de interpretar os sinais que vão surgindo e que vamos aprendendo a decodificar, seja em relação a aparências, seja em relação a nossa própria forma de ler o mundo, com suas mudanças constantes, e às vezes tão rápidas que mal nos damos conta do que se foi e do que entrou no lugar, e se isso ainda importa ou não. Moda são modos, isso é fato, mas nem sempre prestamos atenção nos macro comportamentos, que acabam influenciando o que vestimos, o que comemos, o que compramos, etc. E isso tudo está ligado diretamente a algo que chamamos de macro tendências.

E o que são as Macro Tendências?

As macrotendências são todos os grandes movimentos ou correntes socioculturais que influenciam as sociedades, a cultura e o consumo durante longos períodos de tempo. Através delas, podemos observar os comportamentos que irão guiar escolhas futuras nos campos da moda, da arte, da gastronomia e do design. Algumas delas já foram preconizadas há algum tempo, mas seguem atuais:

1. Maior preocupação com o bem-estar e mudança de hábitos alimentares.

Essa macrotendência não se alinha à noção capitalista de que bem-estar está atrelado ao consumo de bens materiais. Ao contrário, ela diz respeito às coisas simples da vida, ao que realmente é essencial, e não por acaso é cada vez maior a onda de pessoas preocupadas com saúde e bem-estar, influenciadores digitais com milhões de seguidores buscando conscientizar seguidores da importância dos exercícios, da higiene física e mental, e dos bons hábitos alimentares. É importante notar que a estética está deixando de ser o chamariz para as pessoas que buscam esses símbolos, onde a saúde e a longevidade estão roubando a cena quando o assunto é alimentação. Entretanto, a preocupação em consumir produtos orgânicos, que já ganhou força na alimentação, ainda não aparece no consumo de moda. Tecidos orgânicos ou ecológicos são mais caros, sim, assim como os alimentos orgânicos, mas nossa pele também absorve o que vestimos, e a novela dos agrotóxicos ainda vai longe...precisaremos estar muito atentos e nos posicionar não só pela nossa saúde, mas pela saúde do planeta.

2. Economia de recursos.

O aumento da consciência das pessoas em relação ao fato de que os recursos físicos do planeta são finitos, caracteriza a macrotendência da economia de recursos. Esse comportamento crescente tem gerado inúmeras ações que conscientizam pessoas quanto à necessidade de mudar o padrão de consumo atual. As pessoas engajadas nesse tópico tendem a tentar apagar as marcas (ruins) humanas deixadas na Terra. É preciso reduzir a demanda dos materiais extraídos, aumentando a eficiência e a produtividade dos recursos usados, estimulando programas de reutilização e reciclagem. O bônus de tudo isso é que aumentando o ciclo de vida das peças, estamos evitando o descarte e o consumo de novos recursos físicos do planeta que seriam usados na produção de outras peças. É imperativo adotar novas normas culturais de consumo compatíveis com os recursos disponíveis. Isso se aplica (e muito!) à moda. Dentro deste tema está a nossa próxima macrotendência: o consumo compartilhado.

3. Consumo compartilhado. 

A economia colaborativa é um novo modelo econômico que permite um consumo criativo e compartilhado. Compartilhar é uma atividade social básica! Exemplos conhecidos como a Uber, Airbnb, brechós online que incentivam o reuso de roupas e calçados em boas condições, serviços de assinatura de roupas, aluguel de peças, Netflix e outros serviços de streaming entre outras iniciativas, são serviços colaborando dentro dessa macrotendência. O objetivo aqui está em conectar quem tem e quem precisa sem se utilizar de novos recursos físicos para tal. Você tem roupas de festa sobrando, paradas no seu guarda-roupa? Mande-as para um brechó, doe, customize, alugue...há muitas formas de colocar essas roupas em circulação novamente. Todos esses mecanismos que fazem mais com menos caracterizam esse comportamento digno de ser replicado por quem já entendeu que precisamos fazer a nossa parte, mesmo que ela seja mínima. A soma desses pequenos gestos pode, sim, trazer um grande resultado.

Neste ano, quero vestir meus valores, cuidar mais da minha saúde física, mental e emocional. Quero vestir causas nas quais acredito, me vestir de mim mesma. Giorgio Armani apresentou em Milão seu desfile sem público, respeitando a orientação de não gerar aglomeração que pudesse comprometer a saúde de seus convidados. Ainda esse corona vírus ditando regras, infelizmente. Ele apresentou sua moda, sim, via streaming, colocou máscaras nos profissionais que estavam fazendo a transmissão, já que foi a portas fechadas. Seu cuidado vestiu o desfile não só de cores e texturas, mas também de valores, respeitando o momento e a integridade física de seu público e da própria imprensa, poupada de um eventual contágio. Muitas marcas deixaram de fazer a coisa certa, mais preocupadas em faturar, em não perder a oportunidade. Nem tudo é lucro, há quem vista solidariedade e amor ao próximo.

E vocês, que tendência querem vestir neste ano?

por Madeleine Muller

Madeleine Muller é produtora, professora no curso de Design de Moda da ESPM, stylist e mãe da Alexia e do André. Pesquisa o consumo consciente da moda e é autora do livro Admirável Moda Sustentável. Escreve quinzenalmente para o Bella Mais. Acompanhe seu dia a dia pelo Insta: @Madi_muller


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