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Madeleine Muller

Reflexões em tempos de corona vírus - e o que a moda tem a ver com isso?

A frase "quando Paris espirra, a Europa pega um resfriado" nunca fez tanto sentido

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Sei que alguns de vocês vão ler esta coluna e pensar: “ah, lá vem ela com seu papo “eco-chato e biodesagradável”, apenas para citar dois termos que já foram usados por amigos (alguns nem tanto), ao se referirem a mim quando comecei a pesquisar sobre sustentabilidade na moda, por ocasião do meu mestrado, em 2015. No início eu até levava na brincadeira, afinal, eu própria só fui me dar conta de algumas questões relacionadas ao mundo da moda e seus impactos ambientais e sociais quando já tinha mais de 40 anos, e ainda não se dispunha de tanta informação como temos agora...

Hoje presto muita atenção ao que me dizem, porque algumas brincadeiras vêm disfarçadas de negação de problemas, alienação ou, o que é pior, ausência total de empatia para assuntos relacionados à natureza e ao meio ambiente. Bem, me parece cabível afirmar aqui que, por fazermos parte disso e sermos afetados diretamente pelo que acontece diante de forças naturais, visíveis ou não, precisamos fazer a nossa parte para seguir nossa trajetória neste planeta. Estar bem informado é o primeiro passo para se conscientizar de que algo no mundo já estava errado há muito tempo, e ainda está, mas pode mudar, pode melhorar, se todos nós revisarmos nossos valores, mudarmos também nossas atitudes e maneiras de encarar a vida em sociedade. Porque vivemos em coletivos, não podemos deixar de pensar no próximo, de sermos responsáveis uns pelos outros, e um vírus para o qual ninguém estava preparado teve de nos mostrar isso!  

Agora, só se fala no Coronavírus, fomos bombardeados de notícias e obrigados e repensar tudo, pelo medo do contágio, porque o mundo parou e tudo virou ameaça ou urgência. A vida ficou em suspenso, também a economia, que não pode vir antes da saúde, mas outras doenças continuam ameaçando, exigindo prevenção e tratamento urgentes, caso da dengue, que segue silenciosa fazendo vítimas em nosso país sem, contudo, aparecer na ordem do dia: não é mais a protagonista nas mídias, apareceu outro vilão mais contagioso. E o que dizer do capitalismo selvagem, que exaure o meio ambiente, ultrapassando o ponto de resiliência, movido apenas pelo lucro financeiro? O meio ambiente, de tão aviltado pela ação humana, agora até tomou um fôlego: já vimos praias limpas e cidades poluídas terem uma recente melhora na qualidade do ar, só pelo “efeito coronavírus”, de fazer todos pararem e se recolher.

Hora de consumir menos

Afinal, o que precisamos para sermos felizes? Uma roupa ou sapatos novos? Para ficarmos em casa? Não. Já temos o suficiente. Isso não faz o menor sentido! Ao menos até as lojas permanecerem fechadas. Tenho conhecidas que seguem exercitando sua atividade favorita pela internet, enquanto alguns não têm o que comer ou como se isolar, simplesmente por morarem na rua. Ficar mais em casa (para quem tem essa possibilidade), reavivando os laços com a família (para os que a tem), e consumir apenas o necessário (para os que conseguem sobreviver, já que isso é privilégio de poucos) já seria prudente sem o vírus. Mas isso não continuará indefinidamente...em algum momento, a normalidade voltará, até na moda, talvez vestida com a roupagem de “novo normal”, num mundo pós-apocalíptico onde todos andarão de máscaras na rua - última tendência,- já adotada por influenciadores e seguidores. Será?

Enquanto isso, outros temas relevantes e correlacionados, seguem exigindo medidas extremas: ainda vivemos uma emergência climática, sendo a indústria da moda considerada uma das maiores poluidoras do mundo, responsável pela exploração constante de trabalhadores em sua cadeia de fornecimento. No entanto, marcas e varejistas ainda não estão assumindo responsabilidade suficiente pelos salários e condições de trabalho em suas fábricas e fornecedores, pelos impactos ambientais dos materiais e processos que utilizam ou por como seus produtos afetam a saúde das pessoas, animais e planeta. Será que agora isso vai ser diferente?

Junto a isso, em meio à crise trazida pela propagação global da Covid-19, resta a reflexão: o que a pandemia do coronavírus nos diz sobre a maneira como temos vivido, trabalhado, consumido e conduzido os negócios até aqui? Vi a loja da Zara de Shangai- cujo comércio reabriu semana passada- lotada de clientes na última segunda-feira, em um vídeo postado por um conhecido que estava lá, perplexo, vendo filas se formarem num espaço fechado, em direção ao provador. Consumidores de moda privados de suas compras durante a quarentena pareciam famintos, aglomerados numa loja, numa espécie de efeito-rebote. O que essas pessoas estão fazendo? Recém saíram de uma pandemia que pode voltar a fazer vítimas a qualquer momento, se não tomarem os devidos cuidados. Parece que não aprenderam nada! Continuam ajoelhando-se nos templos de consumo, como se não houvesse amanhã. E esqueceram o ontem, no caso.

A famosa observação de Metternich, grande estadista do século XIX, e que tomo emprestada da Vogue on line a respeito da crise do corona vírus na indústria da moda, usou essas palavras: "quando Paris espirra, a Europa pega um resfriado", fazendo referência à expansão da revolução democrática popular. Hoje sua metáfora se aplica com uma precisão preocupante à saúde do povo chinês e a de muitos aspectos do mundo inteiro, incluindo a economia. No entanto, uma economia ameaçada é um efeito colateral menor comparado ao fator humano muito mais vital em jogo aqui, conforme já discorremos em uníssono com a Vogue. Somente quando está ameaçada é que compreendemos e nos damos conta plenamente de que nossa saúde é o bem mais valioso de todos!

Em tempo: O uso de máscaras não pode substituir o isolamento social, a higienização das mãos e o cuidado de não levá-las ao rosto: a máscara é apenas uma medida aditiva. Combinado? Então, bora se proteger...

Fiquem bem e até a próxima!

por Madeleine Muller

Madeleine Muller é produtora, professora no curso de Design de Moda da ESPM, stylist e mãe da Alexia e do André. Pesquisa o consumo consciente da moda e é autora do livro Admirável Moda Sustentável. Escreve quinzenalmente para o Bella Mais. Acompanhe seu dia a dia pelo Insta: @Madi_muller


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