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Madeleine Muller

Reflexões sem tempo perdido!

Madeleine Muller fala sobre nosso senso de urgência para chegar onde queremos


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Estava eu trabalhando num studio fotográfico, quando tocou na playlist de alguém da equipe aquele hino chamado "Tempo Perdido", do Renato Russo, música composta no longínquo 1986 (agora, olhando para trás, parece longe mesmo) e que marcou toda uma geração, como todas na faixa dos vinte anos, com muita pressa em viver e fazer “tudo”. Para mim, essa música simbolizou uma busca e uma inquietude que sempre me acompanharam, ao longo da vida.

Desde adolescente tive dúvidas de estar no lugar certo, fazendo a coisa certa. Era algo como o coelho da Alice no País das Maravilhas, que estava sempre com pressa ou atrasado. Também eu me movia desesperadamente, tentando chegar a algum lugar ou situação de vida ou de sucesso (o que quer que isso fosse) que vislumbrasse aquela sensação tênue e fugidia, que meu pai chamava de “chegar lá”. Onde era “lá”? Eu nunca me sentia perto desse lugar ou momento, então seguia correndo para viver tudo, fazer tudo, sentir tudo.

Eu tinha pressa! Eu não podia perder tempo! Mal me dava conta que meu senso de urgência para alcançar esse não-lugar que meu pai insistia tanto, não conseguia reter o inexorável tempo. Fazendo tudo ou fazendo nada, ele passava igual.

Provavelmente nunca cheguei ou chegarei “lá”, tampouco o pai, que se foi há dez anos, um mês depois de meu filho caçula nascer, e que ele não teve tempo de conviver. E se chegou a algum lugar, nessa última viagem, não me mandou nenhum aviso nem apareceu em sonhos para me tranquilizar. Faço votos para que ele esteja bem “lá”, onde quer que isso seja.

                                                                   No meu aniversário de 11 anos, quando eu tinha todo o tempo do mundo!

Lembro que, numa de nossas idas ao consultório onde ele fazia suas sessões de quimioterapia, tocou “Tempo Perdido” no rádio. Vi o pai concentrado na letra, parecia nostálgico. Era num mês de dezembro também, época em que ficamos mais sensíveis. Acho que essa canção o tocou e finalmente ele aceitou o fim. Só trocamos um breve olhar, não houve choro nem palavras desnecessárias.

Essa música fala por si. Trata-se de uma reflexão acerca da passagem inevitável do tempo e da condição efêmera da vida. Apesar do título, a mensagem é inspiradora e positiva: sempre podemos mudar nossas prioridades, nossos modos de viver, e devemos nos dedicar ao que realmente é importante para nós. Olhar para o que somos, não para o que temos, e mesmo que os bens materiais sejam importantes, eles não nos definem. O essencial é invisível, intangível, imensurável.

Cada vez mais a noção que eu tenho do tempo, do alto dos meus 54 anos, me faz pensar que o que ele me rouba, eu própria me acrescento, parafraseando Shakespeare (porque eu amo esse soneto!). Sei que tenho mais tempo para trás do que para frente, e ok, aceito a finitude, mas isso não significa que eu vá me acomodar ou não possa mais chutar o balde e recomeçar, quantas vezes eu precisar ou acreditar que deva. Minha urgência hoje é não deixar para trás meus sonhos e crenças num futuro compartilhado por todos.

Desde 2015 venho escutando mais meu coração, realinhando meus valores, enfrentando novos desafios, estabelecendo mais conexões, lutando por causas que significam para mim e me empenhando em concretizar aquilo em que acredito. Faço a minha parte para um mundo melhor, ainda que ela seja mínima, ínfima, mas é meu imperativo categórico.

Não sei se chegarei “lá”, como o pai queria, por enquanto me contento com meu aqui e agora. Sei que ainda tenho tempo de fazer, desfazer e refazer muitas coisas na minha vida. E sinceramente, não perdi nada, só ganhei: há sempre tempo para expandirmos nossas consciências!

Tempo Perdido

Todos os dias quando acordo
Não tenho mais
O tempo que passou
Mas tenho muito tempo
Temos todo o tempo do mundo
Todos os dias
Antes de dormir
Lembro e esqueço
Como foi o dia
Sempre em frente
Não temos tempo a perder

Nosso suor sagrado
É bem mais belo
Que esse sangue amargo
E tão sério
E selvagem! 
Selvagem! Selvagem!
Veja o sol
Dessa manhã tão cinza
A tempestade que chega
É da cor dos teus olhos
Castanhos

Então me abraça forte
E diz mais uma vez
Que já estamos
Distantes de tudo
Temos nosso próprio tempo
Temos nosso próprio tempo
Temos nosso próprio tempo

Não tenho medo do escuro
Mas deixe as luzes
Acesas agora
O que foi escondido
É o que se escondeu
E o que foi prometido
Ninguém prometeu
Nem foi tempo perdido
Somos tão jovens
Tão jovens! Tão jovens!

Boas festas a todos e até 2020!

por Madeleine Muller

Madeleine Muller é produtora, professora no curso de Design de Moda da ESPM, stylist e mãe da Alexia e do André. Pesquisa o consumo consciente da moda e é autora do livro Admirável Moda Sustentável. Escreve quinzenalmente para o Bella Mais. Acompanhe seu dia a dia pelo Insta: @Madi_muller


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