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Madeleine Muller

Reflexões sobre os limites da nossa falta de intimidade

Madeleine Muller traz uma importante reflexão sobre aquilo que compartilhamos

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Na nova vida entre telas (de tevê, celular, computador e todos os recursos tecnológicos criados para nos manter conectados, informados, ocupados e até meio anestesiados no chamado “novo normal” do home office), as questões da sociedade-confessionário, que levaram à extimidade, palavra cunhada por Tisseron* (o psiquiatra e psicanalista Serge Tisseron trouxe sua contribuição teórica para as relações consideradas por ele como “significativas” ): são as que passaram da “intimité” à “extimité”, isto é, da intimidade ao que ele chama de “extimidade”. E não estou falando sobre se apresentar em reuniões de pijama, isso é só a ponta do iceberg! Contar e mostrar para os outros tudo o que fazemos, lemos, comemos, as marcas que vestimos, os pets que amamos, os produtos do tipo “nãopossoviversem”, as faxinas, as dicas de qualquer coisa, os recebidos do dia, as “selfies humanitárias” em tempos de solidariedade marqueteira, tudo-tudo que acontece em nossas vidas é despejado, confessado e, dependendo das reações (likes? indiferença?), seguimos editando nossas vidas e o que entendemos por “conteúdo relevante” para compartilhar.

O advento da sociedade-confessionário marcou o triunfo definitivo daquela invenção esquisitamente moderna que é a privacidade – agora totalmente questionada e discutida em tempos de pandemia, onde todos somos voyeurs nas casas dos outros, conferindo seu cotidiano, onde dormem, que cor é a parede do quarto, o estilo da decoração, pequenos fragmentos da vida alheia, um flash com familiares passando ao fundo ou um cachorro latindo, que alguns trazem para a reunião, assim como acontece com as crianças, e todos espreitando os interiores e o tipo de vida de quem está do outro lado da tela, aquilo que habitualmente não tínhamos acesso, além do limite imposto por cada um.

Quais são os limites agora da vida em modo vídeo conferência com cara de big brother?? Estamos revendo comportamentos já observados com a explosão das redes sociais exibindo as vidas de todos, sendo anônimos ou famosos. Aliás, difícil definir fama nos dias de hoje, onde temas que nos parecem absolutamente banais ou bizarros formam  “ídolos” da noite para o dia, ainda que à custa do pseudoentretenimento do mau-gosto e da banalização, brincando com coisas sérias, mas que estão aí, expostas, dispostas, bombando likes e virando o tópico da vez no twitter, ou em qualquer outro canal. Citei o twitter porque lembrei de um tópico específico, que chamou a atenção há alguns dias sobre um “desafio” surgido no Tik Tok, completamente non sense, mas que foi postado, testado (e replicado) por muita gente, o #coronachallenge.

Não viram? Bem, vocês não perderam nada...Ah, sim, tem o #pillowchallenge do pessoal da moda, não menos sem noção, e tão alienado quanto, mas ao menos sem caracterizar um perigo em potencial para a população que segue tal conteúdo. Crianças e jovens, claro. Independente da idade, como já sabemos, através dos estudos de marketing. O jovem de hoje também é ageless, fenômeno que estende a questão cronológica para a de lifestyle. Então não estranhem “jovens de 60 anos” no Tik Tok, eles também podem consumir e protagonizar aqueles vídeos curtos de dublagens. Bem melhor do que seguir os desafios de lamber a tampa da privada e outras bizarrices recentes.

Tisseron descreve os adolescentes equipados com confessionários eletrônicos portáteis-celulares e outras telas, multi-telas, por onde vêem e são vistos, consomem e são consumidos, aprendizes em formação e formados na arte de viver na tal sociedade-confessionário, uma sociedade notória por ter apagado o limite que tempos atrás separava o público e o privado. E isso por ser feito através da exposição pública, mas só do lado bom, vejam bem, porque ver as misérias alheias e as realidades da terrível injustiça social que agora, mais do que nunca, insistem em aparecer, isso ninguém quer. Os seguidores podem não entender e passar a seguir outros perfis, mais “leves”, mais legais.

Extimidade são os novos 15 minutos de fama anunciados por Andy Warhol, a nossa intimidade aberta, escancarada, exposta, para fora. Mas que fica lá, registrada, ad perpetum, mesmo que a pessoa, envergonhada, delete depois sua insensibilidade e descaso com o próximo. Nesse ínterim, muitos já repostaram os desafios-bobagens, as selfies enroladas em colchas ou travesseiros e adeus arrependimento, é bom pensar muito bem antes de bancar o engraçadinho. Há valores envolvidos aqui, a vida, a saúde...

Quem acha graça e não se sentiu atingido (ainda) pelos efeitos desse vírus, por viver numa bolha de privilégios, precisa ter mais empatia por quem não tem nenhum e perceber que há gente morrendo, há gente sofrendo, há gente com fome, há gente sem casa, sem colcha, sem travesseiros...luxo que não lhes pertence. Ao invés de postar o #pillowchallenge, que tal doar alguns para quem dorme no chão? Alguma colcha ou cobertor? Existem limites para se fazer piadas, e está na hora de pararmos de fingir que não está acontecendo nada, como os influenciadores de moda que seguem postando look do dia porque estão entediados e precisam “fazer algo” para movimentar suas redes.

A informação está ao alcance de todos, a insensibilidade não tem desculpa. Que nossas vozes sejam usadas para promover o bem comum, mesmo que com pequenas atitudes, olhar para o outro, sair do modo egocêntrico. E quando fizer o bem, não precisa expor quem você auxiliou. Selfies com a desgraça alheia são a coisa mais fútil e cruel, ninguém precisa disso. Façamos por amor, não por likes no Instagram. Sejamos mais conscientes, reais e empáticos. #Vai passar, mas as consequências ainda não são visíveis, ainda estamos vivendo no modo stand-by.

Fiquem em casa, os que ainda podem.

Fiquem bem.

*TISSERON, Serge. Intimité  et Extimité. In: Communications, 88 (Cultures du numérique), 2011.

por Madeleine Muller

Madeleine Muller é produtora, professora no curso de Design de Moda da ESPM, stylist e mãe da Alexia e do André. Pesquisa o consumo consciente da moda e é autora do livro Admirável Moda Sustentável. Escreve quinzenalmente para o Bella Mais. Acompanhe seu dia a dia pelo Insta: @Madi_muller


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