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Madeleine Muller

Sendo mais consciente numa pandemia: o que a moda tem a ver com isso?

Madeleine Muller questiona a quantidade de peças de roupa que precisamos

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Não sei quanto a vocês, mas eu não compro roupas há muito tempo! Bem antes desse vírus chegar, eu já achava que tinha coisas demais no meu armário e não sentia falta de peças novas. Durante esse período de home office, usei menos roupas do que nunca antes em minha vida. Ainda ontem olhei minha gaveta de camisetas, outrora abarrotada (quem nunca?), agora reduzida a 2 brancas, 2 pretas e 1 bege. Pois é, fiz uma “auditoria” lá por 2015 e percebi que essas cinco camisetas, todas de boa qualidade (tenho poucas, mas são duráveis) eram as que eu realmente usava e mais do que suficientes para compor meus looks. As outras, a maioria meia-boca, só estavam fazendo volume ali. Doei todas, não preciso de tantas camisetas.

Para a maioria de nós, uma camiseta é apenas uma camiseta. Algo que vestimos, algo que temos sobrando em nossos armários, ou que compramos sem pensar muito. Mas uma camiseta é o produto de uma cadeia de suprimentos complexa, cujo impacto no meio ambiente e nos trabalhadores está atingindo um ponto crítico. Isso se deve ao fato da produção de têxteis contribuir (e muito!) para as mudanças climáticas, mais até do que a  aviação e o transporte marítimo juntos. Não acreditam? Estive lendo sobre a Oxfam (uma rede global com 20 membros que atuam em cerca de 90 países no total, por meio de campanhas, programas e ajuda humanitária) que divulgou em um relatório recente, que a pegada de carbono de roupas novas compradas no Reino Unido em um único mês é maior do que a de voar um avião ao redor do mundo 900 vezes! Agora imaginem essa comparação aplicada ao consumo mundial de roupas. Eu sei, não dá nem para mensurar isso...

Vamos consumir menos roupas?

Durante décadas, os custos de remessa e mão-de-obra despencaram, permitindo que os fabricantes ganhassem mais e enviassem mais longe. Não é novidade para ninguém que, após a abertura de mercados nos anos 90, no período da globalização, tornou-se muito atraente a compra de mercadorias de países com baixos custos de mão-de-obra, ausência de leis ou falta de fiscalização. O terrível episódio do Rana Plaza em Bangladesh não me deixa mentir, e eu escrevi “episódio” pois essa novela dramática está longe de acabar, ela apenas muda de cenário e transfere a produção para outros lugares mais pobres e com alta vulnerabilidade social. A exploração humana e ambiental continua, apenas ninguém está mais falando nisso porque o Coronavírus é a estrela da mídia no momento. E a moda? A gente vai consumir menos roupas e calçados depois que tudo isso passar? Ninguém pensa nisso quando está dentro de uma loja, física ou virtual, mas a moda exige muita mão-de-obra e tributa a força de trabalho, outra razão pela qual o setor precisa de mudanças. 

Em um relatório sobre a nova economia têxtil, a Ellen MacArthur Foundation constatou que: “Globalmente, a indústria de roupas de US $ 1,3 trilhão emprega mais de 300 milhões de pessoas ao longo da cadeia de valor; somente a produção de algodão é responsável por quase 7% de todo o emprego em alguns países de baixa renda”. Porém, as marcas têm como objetivo vender mais roupas e vendê-las amplamente, aumentando assim os lucros e o conhecimento da marca. Como a sustentabilidade se encaixa nisso? E quem é responsável por levantar a bandeira: consumidores ou fabricantes? Resposta: ambos. Porque TODOS somos responsáveis! Temos de parar com esse consumismo e essas compras descartáveis! Pensem que os atuais 62 milhões de toneladas de peças de vestuário produzidas em todo o mundo, já são um número surreal. Em 2030, nosso consumo de roupas deverá aumentar para 102 milhões de toneladas. São 500 bilhões de camisetas a mais!!! Se nossas ações descuidadas continuarem, a maior parte será desperdiçada. Sabemos muito bem onde a maioria vai parar: nos aterros sanitários ou sendo queimados, como várias marcas já confessaram, caso da Burberry.

“Menos de 1% do material usado para produzir roupas é reciclado em roupas novas no final de sua vida útil. Enquanto isso, os varejistas estão queimando/incinerando novos estoques não vendidos apenas para preservar sua marca. ”

O importante não são as coisas

Não estão só jogando roupas fora, estão deixando de ganhar também. De acordo com a Ellen MacArthur Foundation, mais de US $ 500 bilhões em valor são perdidos todos os anos devido à subutilização de roupas e à falta de reciclagem. As empresas que não se derem conta disso, vão perder o trem da nova economia consciente. Quanto a nós, consumidores, que temos o poder de validar ou boicotar uma marca, sejamos racionais nas compras. Vamos parar de desperdiçar recursos preciosos e usar aquilo que realmente precisamos, ninguém precisa de um guarda-roupa abarrotado para ser feliz, esse confinamento mostrou que podemos viver com menos e que há coisas muito mais importantes na vida. E elas não são coisas...

por Madeleine Muller

Madeleine Muller é produtora, professora no curso de Design de Moda da ESPM, stylist e mãe da Alexia e do André. Pesquisa o consumo consciente da moda e é autora do livro Admirável Moda Sustentável. Escreve quinzenalmente para o Bella Mais. Acompanhe seu dia a dia pelo Insta: @Madi_muller


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