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Madeleine Muller

Será que sabemos viver com os recursos disponíveis?

Madeleine Muller questiona sobre a sustentabilidade emocional

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Quando fui para Portugal, em 2015, me aventurar em um mestrado acadêmico tendo como tema da minha dissertação um estudo sobre a percepção da chamada “moda sustentável” no Rio Grande do Sul, deparei-me, na época, com poucos dados e muitas dúvidas, além das dificuldades para selecionar as marcas gaúchas (com que parâmetros? Quais os indicadores de sustentabilidade?), que timidamente iniciavam nessa jornada, e ainda eram poucas.

Também foi difícil contextualizar o tema e achar o recorte mais adequado, por si só bastante complexo, pois envolve muitas áreas correlacionadas, da agricultura até a economia, passando por todas as fases de produção, uso e descarte do que consumimos, além do entendimento do que é um desenvolvimento sustentável para as empresas, com o equilíbrio dos pilares ambiental, social e econômico, e de que maneira elas incorporavam esse tripé na prática, no que ficou conhecido mundialmente como Triple Bottom Line, termo cunhado por John Elkington, em meados dos anos 90. Para ele, uma empresa só poderia se desenvolver corretamente sendo ambientalmente sustentável, socialmente justa e economicamente viável, além de outros autores considerarem a necessidade de ser culturalmente aceita.

O assunto vinha sendo debatido desde a década de 60, com Rachel Carson, de Primavera Silenciosa, ainda sem grandes alardes na mídia mundial, mas já com críticas ao desenvolvimento baseado em consumo imediato e crescimento econômico acelerado, priorizando apenas os lucros, sem considerar a finitude dos recursos naturais e da capacidade de regeneração do planeta.

Contudo, com a crise ambiental atingindo proporções dramáticas e os excessos decorrentes do descarte precoce de bens e mercadorias, uma das maiores preocupações atuais dos setores público e privado, em decorrência da legislação da logística reversa, é a sustentabilidade emocional onde todos somos chamados à responsabilidade, produzindo ou consumindo, na valorização do que temos e do que precisamos realmente para sermos felizes, buscando alternativas e iniciativas que ajudem a preservar os recursos do planeta e instalar uma nova ordem na relação do ser humano com o seu meio.

O tema da sustentabilidade na indústria da moda já possui interesse acadêmico e bibliografia crescente para embasar não só as discussões para um agir consciente, mas também a tomada de atitudes concretas, pois já não se pode ficar apenas na reflexão e no discurso não amparado por ações condizentes. Temos de realmente projetar novos cenários para a moda e criar hábitos e atitudes que contribuam efetivamente para a elevação dos níveis de qualidade de vida das pessoas, integrada às condições do meio ambiente.

Este tema, ainda em construção, percorrerá um caminho grande e árduo para atingir o que podemos chamar de ideal. Devemos então prestar atenção numa das peças mais importantes desta discussão: o Ser Humano. O que é sustentabilidade emocional? Como ser uma pessoa emocionalmente sustentável? É possivel viver seus sentimentos e necessidades emocionais através de recursos próprios? Em seu texto O Debate, William Ferraz afirma que somos seres totalmente capazes da sustentabilidade emocional.

A dependência é hoje quase um traço cultural e observamos as consequências deste desequilíbrio na constante desarmonia das relações humanas e, também, na relação do ser humano com o seu mundo emocional, seja ele no convívio familiar, social ou profissional. Para que alguém seja capaz de suprir suas necessidades básicas como um “ser humano sustentável”, deverá, em primeiro lugar, identificar suas potencialidades e desenvolvê-las, eliminando assim a possibilidade de gerar mais sofrimento, mais lixo mental, a fim de não poluir mais seu mundo e o mundo das pessoas que estão ao seu redor, desequilibrando seu ambiente de trabalho e colocando em risco todo um sistema corporativo.

Estamos falando aqui de pessoas com suas plenas capacidades mentais, obviamente, não nos aprofundando nas chamadas desordens mentais. Percebemos isso claramente nos profissionais que levam seus problemas para o trabalho, “despejando”, sua carga emocional nos outros colegas, a título de desabafo. Oferecer uma escuta empática é sempre louvável, ainda que este não seja o momento e local para isso, assim como não é adequado descartar as roupas que não se quer mais no lixo comum ou na calçada, conforme já vi em vários lugares, inclusive em Portugal, onde estudei.

Para tudo é preciso um pensamento construtor ou regenerador, que não terceirize os nossos problemas criando outros: assim como os ouvidos dos colegas não são lixeira emocional, as roupas precisam ter uma destinação correta também, para não se transformarem em lixo, porque há sempre uma forma melhor de nos livrarmos dos nossos problemas, sejam eles quais forem. A responsabilidade segue sendo nossa, não importa o que fazemos ou deixamos de fazer.

Sustentabilidade emocional é buscar os recursos internos para viver todas as emoções e sentimentos decorrentes de uma vida. Estamos vivendo a Era da Sustentabilidade, onde podemos aprender a viver com menos coisas, e priorizar as experiências, afinal, as melhores coisas da vida não são coisas, não é mesmo? Nenhum vestido Chanel ou Dior nos vestirá melhor do que um abraço cheio de amor. Assim, é hora de acreditarmos que somos capazes de manter e sustentar boas relações, a força interior e a felicidade.

É evidente que, quando uma pessoa é sustentável consigo mesma, ela será parte importante da sustentabilidade de um todo. Tal conquista permite que se desenvolvam competências pessoais, para trazer mais felicidade para si e para suas relações, sejam elas pessoais ou profissionais. Como escreve André Carvalhal em seu livro Moda com Propósito, este é o momento de retomarmos a consciência de que somos capazes e responsáveis por criar nossa realidade, cocriando e salvando o mundo a nossa volta. E a nós mesmos.

por Madeleine Muller

Madeleine Muller é produtora, professora no curso de Design de Moda da ESPM, stylist e mãe da Alexia e do André. Pesquisa o consumo consciente da moda e é autora do livro Admirável Moda Sustentável. Escreve quinzenalmente para o Bella Mais. Acompanhe seu dia a dia pelo Insta: @Madi_muller


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