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Madeleine Muller

'The True Cost' foi lançado após o desabamento do complexo têxtil Rana Plaza, em Bangladesh

Sessão pipoca sustentável: o 'lado B da moda'

Madeleine Muller sugere documentários que ajudam a entender o que está por trás das nossas roupas

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Olá, pessoas queridas! Eu já comentei em colunas anteriores que nós vestimos as histórias daqueles que estão por trás das nossas roupas - são muitas pessoas para fabricar uma única peça, aliás - já que a cadeia da moda é longa e complexa. Quando se fala em grande escala, são várias etapas envolvendo a produção, que não acontece num único momento ou local.

Mea culpa: confesso a vocês que, por alguns anos, andei alheia a tais fatos e pessoas, trabalhadores da indústria têxtil e de confecção, bombardeada e anestesiada que estava pelo mundo das novidades globalizadas. Eram ofertas irresistíveis, tendências, silhuetas, cores do ano e outros ditames da moda, que eu obedecia engolia seguia, com a desculpa de que era por força do meu trabalho como stylist. Ao criar imagens para despertar desejos, eu induzia pessoas a compras não-necessárias.

Como consumidora, eu validava com a minha compra as práticas dessas empresas, que eu sequer investigava, sendo boas ou más. Não se pensava nisso. Mas “algo de podre no reino da Dinamarca” estava acontecendo, a vida começou a acelerar com a virada do milênio, o tempo a escassear e os trabalhos que eu fazia demandavam infinitas opções para aprovação. Por mais que eu oferecesse, nada era suficiente, os clientes queriam sempre mais! Eu vivia no limite entre o consumo e o consumismo, e estava ficando enjoada e exausta. Aquilo não fazia sentido, eu me sentia dividida, afinal, era o meu trabalho, meu ganha-pão! Mas eu sabia que haveria mudanças... E eu queria fazer parte delas.

Essa consciência só veio à tona quando me deparei com as reportagens do Rana Plaza. Antes de 2013, eu não tinha despertado para as questões de justiça social, que impactaram, tanto a minha vida pessoal como a profissional, me fazendo tomar decisões que antes talvez eu sequer considerasse, como recusar um trabalho, ou vários, por não concordar com algumas práticas do mercado, por não tolerar alguns abusos/excessos que eu já via acontecer, mas não sabia exatamente como me posicionar.

Ora, eu fazia parte daquilo, de certa forma, ao promover desfiles e catálogos de marcas famosas, onde já aconteciam injustiças e assédios, de todos os tipos, só que mascarados. É verdade que, naquela época, ainda se dispunha de poucas informações e mesmo o que acontecia nos países asiáticos - para relembrar a tragédia de Bangladesh - não aparecia na grande mídia, era tudo meio nebuloso e distante. Mas estava (e ainda está) acontecendo, bem aqui, diante de nós!

Existem diversos filmes e documentários gringos denunciando o que acontece “do outro lado da moda”, o lado B, obscuro, que poucos conhecem a fundo. Para começo de conversa, vou indicar apenas dois, que resumem bem a vida de quem trabalha na indústria de confecção. O mais recente fala português e foi lançado neste ano, mostrando que Bangladesh, ainda que noutra versão, não está tão longe assim...

'Estou me guardando para quando o Carnaval chegar' (2019)

A escravidão moderna pode vestir o mantra “somos os donos do nosso próprio negócio”, repetido inúmeras vezes pelos personagens (reais!) da história, como demonstra este tocante documentário, que conta a vida de pequenos produtores de jeans na cidade de Toritama, agreste pernambucano, autointitulada a capital nacional do jeans. Quem assistiu, saiu do cinema com uma sensação de mal-estar, e de que algo não está certo, apesar do orgulho daquelas pessoas com suas pequenas oficinas de fundo de quintal compartilhadas com animais e crianças.

Sentada ao lado do crítico de cinema Marcelo Castro Moraes, na sala quase vazia do Cine Bancários em Porto Alegre (único cinema que o exibiu, por poucos dias), eu, ele e uma senhora assistimos, consternados, a saga desses anônimos trabalhadores cujo maior sonho se resume a esperar o carnaval, seu período de férias no ano, onde desligam do trabalho de cerca de 14 horas por dia, vendem o que podem para custear a viagem e soltam as fantasias. De sentir a lagriminha escorrer...

'The True Cost' (2015)

O documentário “The True Cost” foi lançado dois anos após o desabamento do complexo têxtil Rana Plaza, em Bangladesh, para esclarecer como funciona a produção globalizada de roupas, e explica muito bem o que acontece no sistema fast fashion, onde não raro são denunciadas situações de trabalho escravo e trabalho infantil.

Sabe-se que a escravidão moderna se reveste de muitas roupagens: esse é o lado feio da indústria da moda, que a sociedade se acostumou a não ver ou a não querer saber, desde que possa vestir peças de design pelo menor preço possível. Só que essas peças vêm com uma etiqueta oculta, onde alguém está pagando a conta por nós! Tal é o “milagre” das roupas baratas: quanto mais terceirizada a confecção, menor é o custo de produção, e consequentemente, o valor passado aos clientes.

Investigue a origem do que você consome

E para quem pensa que isso só acontece nos países asiáticos ou africanos, aqui mesmo, no nosso país, ainda acontecem casos de exploração de trabalhadores na indústria têxtil e de confecção, em condições análogas a de escravidão. Esta é uma preocupação legítima com o meio social em que a indústria da moda trabalha – países subdesenvolvidos em desenvolvimento que dependem dela para se sustentar –, uma vez que as pessoas que produzem roupas para as grandes marcas não têm condições mínimas de trabalho, de pagamento e muito menos de direitos. Há exceções? Lógico que sim, mas estamos falando aqui de exploração, assunto que incomoda quando as empresas não têm outro propósito que não o lucro financeiro.

Se você não quer compactuar com violações aos direitos dos trabalhadores, investigue a origem de tudo que consome, e só valide com sua compra as boas práticas do mercado. Leia e informe-se, é a única forma de se conscientizar e de farejar também o oportunismo marqueteiro, disfarçado de greenwashing. Atualmente, muitas marcas querem surfar na onda do ecologicamente correto, só que isso não é um modismo. E não bastam ações compensatórias. É preciso impactar o mundo de forma positiva e realmente mudar o jeito como se pensa, cria, faz, entende e consome moda. Para o bem de todos que estão aqui, e dos que ainda hão de vir.

Quem compra roupas feitas por meio de trabalho escravo ou infantil está premiando práticas que já deveriam ter sido banidas há muito tempo, mas que continuarão existindo se houver demanda para produtos que tenham essa origem. Quem paga, tem de se importar, a compra e o boicote também são atos políticos que forçam as empresas a mudarem. Sendo assim, os consumidores podem ditar suas regras no mercado e exigir que os fabricantes ajam com ética, transparência e respeito às pessoas e ao meio ambiente.

A gente se vê na próxima coluna!

por Madeleine Muller

Madeleine Muller é produtora, professora no curso de Design de Moda da ESPM, stylist e mãe da Alexia e do André. Pesquisa o consumo consciente da moda e é autora do livro Admirável Moda Sustentável. Escreve quinzenalmente para o Bella Mais. Acompanhe seu dia a dia pelo Insta: @Madi_muller


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