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Adidas, Zara, GAP, Versace e outras marcas se unem para reduzir impactos ambientais

Mudanças passam pela redução do uso de ativos químicos na produção, transporte mais eficiente e diminuição dos resíduos

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Mais de 30 grandes grupos mundiais da indústria têxtil, uma das mais contaminantes, lançaram na sexta-feira (23) uma coalizão para reduzir seu impacto ambiental de forma voluntária, recebida com ceticismo por várias ONGs.

Pesticidas para produzir algodão, produtos químicos para tingimentos, CO2 para transportar as peças por milhares de quilômetros, microfibras de plástico que se desprendem durante as lavagens e acabam nos oceanos: todos os processos da moda são de alguma forma contaminantes.

O setor também é responsável por 20% da descarga de águas residuais e por 10% das emissões de CO2 no mundo. O governo francês encarregou em maio François-Henri Pinault, presidente do grupo Kering (número dois mundial do luxo) de mobilizar a indústria.

Três meses depois, nessa sexta-feira, foi apresentado um "pacto da moda", assinado por marcas como Adidas, Capri Holdings (dona da Versace), Carrefour, Chanel, H&M, Gap, Inditex (proprietária da Zara), Kering, Nike, Prada, Puma e Stella McCartney, entre outras. Na segunda-feira (26) Pinault vai falar sobre o assunto na cúpula do G7 em Biarritz (sul da França).

Essa não é a primeira iniciativa desse tipo. Durante a COP24 da Polônia, em 2018, 43 empresas do setor se comprometeram a reduzir em 30% suas emissões de gases de efeito estufa até 2030. No novo pacto, as marcas prometem "direcionar as empresas para ações compatíveis com a trajetória de 1,5ºC de aquecimento climático, através de uma 'transição justa' para alcançar zero emissões líquidas de CO2 em 2050".

O texto identifica campos de ação para "atenuar as mudanças climáticas e se adaptar", "inverter a curva da perda de biodiversidade em 10 anos" e proteger os oceanos com objetivos em números, como 100% de energias renováveis em 2030 "em toda a cadeia de suprimentos", "eliminar o plástico de uso único em 2030".

O compromisso não detalha como conseguir, já que "cada grupo tem suas espeficidades", segundo o grupo Kering (Gucci, Yves Saint Laurent). Uma reunião está marcada para outubro "para ter mais detalhes sobre como trabalhar em conjunto" e definir as ações prioritárias. Os grupos "prestarão contas anualmente".

 

Produzir menos?

O que vai acontecer se as empresas não cumprirem seus compromissos? Segundo o Ministério da Transição Ecológica da França, é preciso apostar "nos influenciadores nas redes sociais, nas ONGs (...) que vigiam os atrasos entre os discursos e os atos" para pressioná-las. "Os efeitos sobre sua reputação podem ser muito violentos" se não atuarem como dizem, acrescentou.

Outros pontos levaram a dúvidas das ONGs. Como a relocação da produção de roupas para mais próximo dos consumidores, que "não está na ordem do dia", segundo o grupo Kering. Outro ponto deixado de fora é o conceito de "fast fashion" e a multiplicação de coleções, apesar de seu impacto evidente sobre o meio ambiente.

"Entre 2000 e 2014, o consumo de roupa duplicou no mundo", segundo Pierre Cannet, da WWF França. A tendência vai continuar, devido "ao furor pela fast fashion" na Ásia, segundo a seguradora Coface, e pela explosão do uso de fibras sintéticas.

"Se o assunto é vender cada vez mais introduzindo energias renováveis, (o pacto) não bastará", adverte Cannet. "É preciso redesenhar o modelo, reduzir a produção, fabricar peças que possam ser utilizadas por mais tempo, que não emitam microplásticos quando são lavadas e que sejam produzidas de forma sustentável".

O texto menciona a reciclagem. Empresas como a H&M lançaram operações desse tip., mas ainda existem obstáculos tecnológicos e econômicos importantes para o tratamento dos têxteis e a proporção de tecidos reciclados continua sendo muito pequena.

Em vez de depender da boa vontade das empresas, são os Estados que devem atuar, segundo Clément Sénéchal, do Greenpeace: "É preciso legislar para induzir a redução do consumo de roupas", defende.

AFP


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