capa

Arte como estratégia para enfrentar o bullyng

A ilustradora franco-brasileira Christine Gerbauld criou uma personagem para conseguir lidar com o problema, surgido na adolescência. Hoje, faz sucesso na internet


publicidade

A superação dos problemas pode vir de várias formas. O desenho, por exemplo, pode ser uma das estratégias para lidar, entender e ultrapassar situações desafiadoras e difíceis. Foram os traços - e uma personagem de quadrinhos - que ajudaram a ilustradora franco-brasileira, Christine Gerbauld, a superar o bullying sofrido na adolescência.

Tudo começou ainda no Rio de Janeiro. Após o nascimento da irmã, Christine teve síndrome de nanismo psicossocial e, aos 15 anos de idade, aparentava nove. Esse foi o motivo para as piadas e perseguições dos colegas. O isolamento se tornou o caminho mais natural. “Comecei a desenhar para expressar meus sentimentos, tudo o que eu estava vivendo. Ali nasceu a Crica, uma personagem que vivia as mesmas coisas que eu, mas que lidava de outra forma, com mais humor e leveza”, conta Christine, hoje empresária radicada em Porto Alegre.

Os intervalos e a biblioteca da escolar eram os refúgios. Um dia, resolveu espalhar os desenhos pela escola, de forma anônima. Rapidamente, a obra chamou a atenção de quem passava pelo corredor. A cada dia, um desenho diferente era colocado no mural e o mistério sobre quem era o artista responsável. “A repercussão foi grande e decidi revelar a autoria. Isso gerou surpresa entre os colegas, que já ficavam na expectativa para saber qual seria a próxima aventura de Crica”, relembra Christine.

Após vencer o nanismo - e os desafios do ensino médio - Christine resolveu estudar arte na França. Juntou dinheiro para a viagem, foi aceita cursar Artes Visuais em Orléans, mas por um erro administrativo, acabou não sendo matriculada. “Resolvi escrever para o gabinete do então presidente francês Jacques Chirac contando o erro. Não tinha grandes expectativas, mas precisava fazer algo. Não é que me responderam?”. Não apenas teve resposta como conseguiu o ingresso imediato no curso.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Uma publicação compartilhada por Crica & Kiki (@cricaekiki) em

Ao final dos três anos de curso, tempo em que Crica acompanhou as aventuras e dificuldades de Christine de viver em Paris, era chegada a hora de escolher o tema de trabalho de conclusão. “A decisão foi fácil: seria a Crica. Mas nesse momento, tive dificuldades com meu orientador que queria que eu modificasse os traços da personagem, fechando-os”, conta a cartunista. Ela não aceitou, afinal, isso iria mudar a personalidade de Crica e do seu estilo de desenho.

A solução passou pela troca de orientador no último mês de TCC e, mesmo enfrentando assédio do seu mestre de estágio na época, não apenas foi aprovada como conseguiu uma menção honrosa do Ministério da Cultura Francesa.

Personagem ficou adormecida

Depois de se formar, Christine permaneceu por um tempo na França e depois retornou ao Brasil. Montou uma empresa, casou, mudou-se para Porto Alegre, teve um filho. Crica acabou perdendo espaço no cotidiano atribulado. Mas, esteve sempre ao lado de Christine, como um alter ego que lhe passava força para enfrentar as situações.

Ano passado, em uma viagem a São Paulo, Crica renasceu. Christine visitou uma exposição sobre História em Quadrinhos no Museu da Imagem e do Som, ficou encantada com o que viu e se questionou: porque a Crica não estava lá?

A partir dali, Crica retomou seu espaço na vida de Christine e até ganhou perfil próprio no Instagram. O motivo? “Essa história merece ser contada para ajudar milhares de pessoas que, como eu, foram vítimas de agressões físicas, verbais e emocionais. É preciso falar disso, através de um diálogo aberto e honesto. E nada melhor do que o humor e a arte para ajudar nesse enfrentamento”, finaliza.

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Uma publicação compartilhada por Crica & Kiki (@cricaekiki) em

por Fabiane Madeira

@fabianemadeira é apaixonada por comida, mas vira e mexe briga com a balança. Adora cinema, mas não é cinéfila. É empresária, dinda e tia babona. É editora do Bella Mais e gremista desde sempre.


compartilhe