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Dia da Mulher: Quem anda ao nosso lado?

No Dia Internacional da Mulher, propomos uma reflexão sobre o papel dos homens


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Por muito tempo o Dia Internacional Da Mulher foi levado como um momento de celebração da feminilidade e dos papéis femininos. Porém, hoje em dia, vemos que essa data representa muito mais do que isso, é um momento de reflexão. O Dia da Mulher é um espaço para repensar como as relações de gênero atingem esse grupo. O nosso dia a dia no Bella Mais é voltado para o público feminino, pensamos em pautas sobre mulheres, tentamos sempre conversar com profissionais e especialistas mulheres. Por isso, hoje resolvemos falar com quem mais precisa refletir sobre o papel da mulher na sociedade, quem nos cala, quem nos violenta, quem nos mata. Lançamos a pergunta: Como os homens podem participar e contribuir com as lutas femininas?

Atualmente vivemos na quarta onda feminista. No Brasil, 38% das mulheres se consideram feministas, segundo o DataFolha. Elas têm questionado as estruturas patriarcais da sociedade e esse movimento causa desconforto para muitos homens. Segundo a psicóloga Carolina Mombach, nesse sentido, os homens devem questionar e refletir sobre as condições de privilégio masculino experienciadas. 

“Isso vai desde ter uma maior credibilidade nas relações de trabalho, maior facilidade de acesso à ambientes, bem como, menor incidência de violências nestes ambientes que variam desde transporte público, ruas, até festas, por exemplo. Entender que eles ocupam um lugar de privilégios, neste sentido, já é um passo para a constante reflexão de como este lugar vai sendo ocupado nas pequenas relações do cotidiano”, explica a psicóloga.

As situações de violência também partem da presunção de superioridade autorizada a esses homens. Nesse contexto, o Brasil ocupa o quinto lugar em maior número de feminicídios em todo o mundo, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas pra os Direitos Humanos (ACNUDH). De acordo com a advogada Gabriela Souza, sócia-fundadora do escritório Gabriela Souza - Advocacia para mulheres, não existe um perfil de homem agressor porque em uma análise política social vemos que esses comportamentos, ao contrário do que os preconceitos levam a acreditar, são reproduzidos independente de classe ou raça. "O problema da violência contra a mulher no Brasil é social. Não é apenas sobre homens terem mais força que as mulheres. Os direitos foram construídos por homens e para homens. O sistema de leis é completamente patriarcal", explica a advogada.

Masculinidade Tóxica

Quando falamos em violência contra a mulher, pensamos em casos de abuso ou violência doméstica, porém as micro agressões que buscam reafirmar a relação de poder entre homens e mulheres também afetam o dia a dia. Dessa forma, as opressões se expressam em diversas atitudes, seja no marido que levanta a mão para a sua esposa ou no pai que proíbe a filha de usar determinada roupa. Hoje, esses comportamentos têm sido chamados de masculinidade tóxica. 

“Entendendo que a masculinidade tóxica é um termo contemporâneo para falar de ações de homens que estão tão arraigadas que são entendidas como naturais e passam despercebidas até por aqueles que se aliam ao feminismo. Na relação com as mulheres, normalmente, ela se volta para  ações violentas diretas e indiretas, que podem ir de atos físicos, até momentos em que o homem reafirma essa suposta naturalidade, como a discrepância em tarefas domésticas, por exemplo”, reforça Carolina.

Essas condutas, porém, também são prejudiciais ao sexo masculino. Segundo levantamento do Ministério da Saúde, a cada 5 pessoas que morrem entre 20 e 30 anos, 4 são homens. As estatísticas têm sido ligadas a fatores como maior exposição a riscos ou dificuldade de procurar por ajuda ou atenção médica. Os ensinamentos passados para os meninos desde a infância ajudam a criar a crença de que essas atitudes não estão ligar com o "ser homem". Eles crescem ouvindo que devem engolir o choro, tomar a frente, revidar, prover.

“A forma como criamos meninos em sociedades patriarcais, onde o homem é o centro, comumente normaliza a violência, como no ditado ‘é coisa de guri’ em relação a bullying, agressão e assédio. Individualmente essa pressão social leva a uma série de dores”, pontua o psicólogo e pesquisador Cainã Nascimento.

De acordo com ele, a competitividade centrada na masculinidade corrobora para uma aversão de atitudes consideradas "femininas". Dessa forma, a misoginia e a opressão se tornam também parte da vivência de grande parte dos homens, que aprendem a odiar características relacionadas a mulheres. 

Experienciar a masculinidade, porém, não precisa ser um processo tóxico. Cainã, por exemplo, faz parte do Coletivo Miltons, iniciativa que explora e estuda a masculinidade negra. Dentro desse percurso, ele destaca que existem diferentes escopos na vivência. “Mesmo dentro das insuficiências desse modelo tóxico há valores que podem ser expressos de forma saudável como sustentar aqueles que vivem em comunidade conosco, dar seu melhor seja em atividade esportiva ou laboral nos esportes ou ser leal aos amigos. Mais importante ainda, não há nada tóxico em querer ser respeitado”, ele explica. 

Sandro Fernandes, policial, também tem uma experiência positiva ao lidar com a masculinidade. Ele participa há aproximadamente dois anos do movimento HeForShe que trabalha com a desconstrução do machismo entre os homens. Na sua visão, participar de uma campanha como essa foi importante para entender como essas atitudes tiveram origem e como evitá-las. “O movimento alerta exatamente para essa necessidade, de ampliar o debate das questões de machismo para além do universo das mulheres, desconstruindo diversas questões, como o fato de homens não poderem chorar ou demonstrar emoções, os estereótipos de homem frágil perante mulheres no mercado de trabalho ou como provedoras da família, entre outras”, ele reflete.

Como ser um aliado?

Chegar a um patamar de desconstrução de privilégios não é um processo confortável. Para Cainã, no momento em que um homem entende como a masculinidade tóxica pode ser prejudicial para os seus valores pessoais é necessário decidir entre duas dores: “Por um lado, pode então permanecer doente como a estrutura que o cerca e se sentir confortável nessa distopia, ou buscar ser saudável dentro de uma estrutura doente e se sentir por vezes nadando contra a correnteza, mas nunca contra o sentido no qual estão os valores que busca para si e outros”.

As lutas feministas abriram espaço para que essas conversas sobre masculinidades pudessem ganhar voz. Por isso, entender como unir as lutas em prol de um sociedade mais igualitária e respeitosa é importante para que esse passos continuem sendo tomados. É essencial que nesse momento a figura masculina apareça como uma forma de suporte. “Apoiar a nossa luta por direitos é muito relevante, obviamente, mas as ações tem que ser no nível privado também, através da constante reflexão. Se o homem não sabe como uma mulher se sente em relação à algo: pergunte!”, ressalta Carolina Mombach. 

Para Sandro, além de dar espaço para que as mulheres, trabalhar com a conscientização faz parte da sua função. “No tocante ao papel masculino também cabe conversar não só com as mulheres, mas principalmente com outros homens para entender a percepção deles sobre esse assunto e ajudar a esclarecer o tópico”, ele esclarece.

por Marina Gil

Marina Gil é apaixonada por arte e cultura em todas as suas expressões. É jornalista e adora moda, vinhos e literatura. @aquammarina


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