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Apenas 27% dos gestores dos parques tecnológicos brasileiros são mulheres

Pesquisadora gaúcha estuda a participação das empreendedoras no mercado de tecnologia


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Em suas pesquisas acadêmicas sobre empreendedorismo, administradora de empresas gaúcha Eliane D’Ávila dos Santos analisou a realidade da presença feminina em parques tecnológicos e científicos no Brasil e na Espanha e conversou com mulheres empreendedoras atuantes nos dois países. “Em momento algum eu quis realizar comparativos entre os países envolvidos, a ideia era valorizar a subjetividade de cada pessoa. A singularidade de cada mulher que entrevistei me mostrou que é difícil traçar um perfil, colocar todas dentro de caixinhas e dizer, de forma generalizada, o que eles são”, comenta  pesquisadora. 

A dificuldade de dividir as pessoas em caixinhas fez com que Eliane optasse por elaborar pequenos quadros que ela chamou de aproximações e distanciamentos, onde faz alguns paralelos que permitiram à ela observar alguns insights:

  • Existe baixa representatividade de mulheres empreendedoras, sócias de empresas, dentro dos parques científicos e tecnológicos: enquanto nos três parques investigados no Brasil a representatividade feminina ficou entre 27% a 29% dos gestores, na Espanha apenas 13% de empresas são de empreendedoras;
  • As empreendedoras nesse setor são propulsoras de transformação socioprofissional, se propõem a elevar a representatividade feminina nesses espaços e a evidenciar, nas e pelas formas como se manifestam, seu papel de protagonistas, realçando os preceitos de equidade na construção de sociedades mais sustentáveis;
  • Vivemos em uma cultura em que os jogos simbólicos de poder, aquelas relações e tensões que ficam nas entrelinhas, ainda existem e prevalecem, e nos ambientes de inovação e empreendedorismo não seria diferente. Embora algumas das entrevistadas ainda vivenciem essas dificuldades com maior intensidade do que outras, a grande diferença é que esses obstáculos estão sendo superados. Ou seja, as empreendedoras estão tomando consciência de seus desafios e de como vencê-los para seguirem  protagonistas na atividade de trabalho que escolheram para si;
  • Tanto na Espanha quanto no Brasil as mulheres afirmam enfrentar dificuldades para conciliar a vida familiar e profissional e que os parques poderiam estar mais preparados para aqueles que quiserem se dedicar concomitantemente à maternidade;
  • As mulheres empreendedoras entrevistadas querem construir uma cultura de equidade de gênero nos espaços onde atuam, entendem que sua posição de liderança como gestores de seus negócios pode acelerar este processo, pois elas podem transmitir novos valores aos seus funcionários, possibilitando um ambiente mais inclusivos em suas  empresas. 

A partir do seu estudo, Eliane desenvolveu um entendimento sobre as mulheres empreendedoras inseridas em parques tecnológicos mas que pode, certamente, ser ampliado para o entendimento de quem são as mulheres empreendedoras de um modo geral. “Elas são mulheres que descobriram que podem ser agentes transformadores dentro dos parques. Elas descobriram que possuem força dentro delas e que esse poder pode transformar suas vidas e a vida de pessoas que vivem em seu entorno”, comenta. 

A pesquisadora também ressalta que estas mulheres são autônomas e querem, a partir do empreendedorismo, ressignificar suas vidas e buscar suas próprias maneiras de gerirem seus negócios. “Ainda temos muitos modelos masculinos no mundo dos dos negócios, mas elas não querem adotar comportamentos que não venham ao encontro dos seus valores e  crenças”, frisa.  

Entre as dificuldades que as mulheres empreendedoras apontaram durante a pesquisa, Eliane destaca a dificuldade para conquistar seu espaço de fala. “Elas relataram ser difícil participar de networkings onde a maioria dos participantes é homem e disseram sentir que alguns deles não as enxergam como mulheres capazes e competentes em seus negócios”, lamenta. Opondo seu pensamento à essa lógica masculina - e, porque não, machista - as mulheres sabem que a sociedade ainda valoriza o modelo masculino de liderança empreendedora, mas que elas têm a capacidade de formar redes de relacionamento e usar as forças femininas para tornar estes ecossistemas de inovação e empreendedorismo mais alinhados com um mundo mais sustentável e com maior equilíbrio para todos seres humanos.

Mas, afinal, o que é empreendedorismo?

Para entender o empreendedorismo feminino, Eliane teve que, inicialmente, compreender todos os detalhes do conceito de empreendedorismo enquanto campo de estudo, de forma mais ampla. Entre os diversos conceitos existentes sobre a temática, ela assumiu a linha teórica de Louis Jacques Filion, pesquisador canadense que traz a ideia de empreender alinhado ao sonho do empreendedor e ou empreendedora. “É ter uma ideia, colocá-la na prática e trazer melhorias  e inovação para resolver problemas do mundo contemporâneo”, explica.  

Assim, Eliane defende que “empreender não significa exclusivamente abrir uma empresa. Você pode empreender também dentro da corporação em que você trabalha, dentro das instituições em que você participa, como escolas, igrejas, associações, etc. Empreender está relacionado aos valores e crenças de cada ser humano e também pode ser apreendido no decorrer da vida”.  


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