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Como lidar com o luto?

Especialista explica como devemos encarar a perda de uma pessoa querida

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O luto é um processo adaptativo frente a perda de algo importante. Quando diz respeito a um vínculo significativo com uma pessoa, o processo é ativado automaticamente e os mecanismos são protetores, ou seja, é um recurso restaurador para que possamos nos adaptar a um mundo sem aquela pessoa, que não existe mais fisicamente. “Este processo não tem início, meio e fim. Se trata de adaptação, em que a pessoa tem que seguir sua vida e projetos. É uma revisão de uma série de aspectos internos e externos, pois muitas vezes a morte de alguém exige que tenhamos que mudar algumas coisas na nossa vida: seja de cidade, de casa, de condição civil, entre outros aspectos”, explica a psicóloga Adriana Zilberman.

Ao mesmo tempo, o vínculo com a pessoa que se foi permanece através de lembranças. Ou seja, o relacionamento continua, mas agora em outros moldes que não os físicos. Porém, segundo ressalta Adriana, não podemos pensar no processo de luto como uma finalização ou em fases. “Isso pressupõe que todos tenham o mesmo processo e não é assim que acontece, pois cada pessoa tem a sua singularidade. Existem também alguns aspectos dessa relação e da forma que aconteceu a morte: decorrente de um longo processo, em caso de doença ou de forma abrupta num acidente, por exemplo”, esclarece a psicóloga. “Cruzamos todos estes pontos para entender o processo de luto de cada um”, completa.  

Conforme explica Adriana, estes elementos, chamados “mediadores do luto”, vão influenciar na maneira com que ele vai acontecer - o que não significa que será melhor ou pior, pois perdas, dor e sofrimento são imensuráveis. Segundo a profissional, cerca de 80 a 85% das pessoas vivem o processo de luto dentro do esperado, ou seja, o “luto normal”. E uma minoria, em torno de 15%, pode ter um risco aumentado chamado de “luto complicado”. “São reações intensificadas ou prolongadas que se tornam crônicas e principalmente, bloqueiam áreas importantes da vida do indivíduo. Nesses casos é importante uma intervenção profissional e acompanhamento dessa pessoa, pois ela tem riscos de desenvolver uma depressão severa, sem falar que o luto é um dos fatores preditores para suicídio”, alerta. 

Vamos estar preparados para a perda?

O psiquiatra inglês John Bowlby desenvolveu a Teoria do Apego, em que diz que está impresso em nosso DNA estarmos ligarmos e construirmos vínculos duradouros ou permanentes. “A perda é justamente o oposto a isso. Ela contrapõe nossa essência biológica de vínculos duradouros com pessoas que sejam importantes, por isso nunca estaremos preparados para este acontecimento”, explica Adriana. O processo de luto é o reparador dessa ferida, que é permanente - cicatriza, mas vez ou outra pode sangrar. “Muitas vezes, anos depois da perda, nos deparamos com alguma situação em que lembramos da pessoa, como aniversário, Natal ou até mesmo em momentos em que estamos vulneráveis, como quando sofremos outra perda”, exemplifica. Isso não significa que vamos ficar bloqueados ou que a vida será sempre voltada para esta perda. “Eventualmente, em situações de vulnerabilidade, pois não somos seres lineares, as lembranças podem vir de diferentes formas: com alegria, tristeza, saudade” , explica a psicóloga. 

Por óbvio, não existe uma “fórmula” que mostre a melhor maneira de lidar com o luto. Entretanto, segundo Adriana, quanto mais for permitido que a pessoa possa expressar e sentir sem julgamentos a dor e o sofrimento, sem precisar reprimir, melhor vai acontecer o processo. “Existe uma pressão social sobre o jeito certo de se lutar, muitas vezes com uma banalização do luto, como por exemplo, quando da perda de um animal de estimação ou ex-cônjuge. Socialmente as pessoas impõem regras, o que pode dificultar o processo. Porém, quando a pessoa pode dar evasão às emoções e também compartilhar esse sofrimento, as coisas ficam melhores”, finaliza.

 


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