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O que faz uma mulher perdoar o agressor?

Especialistas explicam alguns dos motivos que podem ter levado Michele Schlosser, vítima de violência, a beijar e perdoar o homem que disparou 7 tiros contra ela

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"Da próxima vez, não vai conseguir pedir beijo porque estará morta", "Garanto que se fosse facada não beijava", "Deveria levar mais uns três tiros!". Esses são alguns dos comentário encontrados na redes sociais sobre o caso da mulher de Venâncio Aires que beijou o ex-namorado enquanto ele estava em julgamento, no dia 29, por disparar 7 tiros contra ela. A foto do momento do beijo foi publicada em diversos veículos e nas redes sociais.

O crime aconteceu em agosto do ano passado. Micheli Schlosser, 25 anos, disse no seu depoimento ter perdoado o ex-namorado. O agressor foi condenado a sete anos em regime semiaberto e poderá responder em liberdade. “Ele nunca tinha me agredido, sempre foi muito bom para mim e já pagou pelo erro dele”, ela afirmou.

De acordo com a psicóloga Josiane Razera, coordenadora do curso de Psicologia da IMED Passo Fundo, os julgamentos e as especulações que têm sido feitos em cima do caso desde sua publicação podem ser perigosos para os envolvidos. "Todo e qualquer comentário especulativo ou com tom de julgamento nada mais é do que outra forma de violência, já que também pode provocar sofrimento", complementa a psicóloga. 

Em entrevistas posteriores, Micheli afirmou pensar em continuar a viver com o seu agressor. Ela justificou a violência sofrida dizendo que provocou o namorado com ameaças. A advogada Lisiana Carraro, doutora em Diversidade Cultural e Inclusão Social, destaca o teor cultural da atitude tomada por Micheli. "Descabe criticar porque a atitude está contaminada por uma sociedade com raiz machista, uma cultura de que a mulher é a culpada pela ação do agressor seja pela roupa que usa, seja por quem ela se relaciona ou ainda pelos lugares e horários que transita nos espaços públicos da cidade".

Vítima poderia sofrer de Síndrome de Estocolmo?

Entre os comentários e rodas de conversas, diversas pessoas identificaram a situação como um quadro de Síndrome de Estocolmo, termo utilizado para caracterizar situações em que vítimas de assaltos ou sequestros desenvolvem sentimentos de afeto pelos raptores. Josiane ressalta que essa hipótese não se aplica a relacionamentos românticos. A teoria sistêmica, que entende que uma vítima de violência poderia repetir o comportamento, por exemplo; pode ser usada para explicar o fato. Assim, a partir da compreensão da forma como as pessoas se relacionam, entende-se os padrões que se repetem.

A permanência de vítimas em relacionamentos abusivos parece impensável para quem está vendo de fora. Essa atitude pode estar relacionada a dependência financeira, a filhos ou a algum tipo de ameaça. Porém, existem também fatores ligados ao sistema em que os indivíduos estão inseridos e que dificultam que a violência seja vista de tal forma. "Muitos indivíduos podem ter vivenciado esses mesmos comportamentos desde a infância, o que remete a uma naturalização da violência. Tanto enquanto vítimas ou agressores, pode-se encontrar dificuldades em compreender que esses comportamentos são nocivos a saúde", explica.

Segundo Lisiana, a incompreensão da situação de violência também passa por um desentendimento do enquadramento legal de algumas atitudes. "A Lei Maria da Penha ampara o resguardo da integridade física e psíquica, o que garante à mulher um relacionamento digno de respeito, caindo por terra que o homem tem direito sobre a mulher e que ela deve suportar todas as situações em um casamento".

Na sua dissertação de mestrado, Josiane investigou a percepção da qualidade do casamento de indivíduos que vivenciam situações de violência. A pesquisa mostrou que situações como a de Micheli são mais comuns do que parecem. "Os resultados indicaram que um número significativo de participantes avaliaram o casamento como bom, mesmo que em momentos de conflitos utilizaram-se de comportamentos violentos", conta a Josiane.

por Marina Gil

Marina Gil é apaixonada por arte e cultura em todas as suas expressões. É jornalista e adora moda, vinhos e literatura. @aquammarina


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