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Brasil faz vista grossa com jogadores envolvidos em violência contra mulheres

Caso do jogador Robinho é o mais recente na lista de atletas envolvidos em acusações (subestimadas) de violência contra a mulher

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O caso mais recente envolve Robinho, o "menino da Vila" que surgiu em 2002 como grande promessa do futebol, mas que não chegou ao topo. A lista de jogadores de futebol que continuam em campo apesar das acusações ou condenações por violência contra as mulheres é longa em um Brasil que raramente fecha as portas aos agressores.

“Não conseguimos passar uma temporada sem que haja pelo menos uma notícia de um jogador envolvido em crimes contra a mulher por aqui”, declarou Renata Mendonça, comentarista do SporTV e cofundadora do portal Dibradoras, especializado em cobertura esportiva feita por mulheres. 

Nos últimos anos, a imprensa relatou vários supostos ataques. Dudu, Jean, Juninho, Carlos Alberto, Jobson, Valdiram, Vampeta ou Marcelinho Paraíba foram denunciados ou detidos sob várias acusações de violência, de espancamentos a estupros. Todos continuaram atuando por seus times. Talvez o caso de maior destaque seja do ex-goleiro do Flamengo Bruno, que matou a ex-amante em 2010 e cuja história de assassinato correu o mundo. Atualmente, ele defende o Rio Branco, time do Acre da Quarta Divisão do futebol brasileiro. 

Robinho integra agora essa desonrosa lista no retorno ao Santos, que anunciou sua contratação no último sábado, após ser condenado em 2017 pela Justiça italiana a nove anos de prisão por um estupro coletivo. O atacante de 36 anos defende sua inocência e recorreu da sentença. 

“Há uma tolerância para crimes assim - na sociedade e principalmente no futebol. O cara pode bater na esposa, se continuar jogando bem e ganhando jogos pelo seu time. O cara pode estuprar uma mulher na balada, se ele continuar fazendo gols. O recado que isso passa é que a vida das mulheres não importa. Vale menos do que os três pontos de uma vitória no campeonato”, reflete Renata Mendonça. 

Ela garante que há mais casos de agressão envolvendo atletas do que os veiculados na mídia, mas suas ações não chegam a público por medo das vítimas para fazer as denúncias ou porque muitos consideram situações normais. 

Por causa dessa "normalidade", ressalta a jornalista, esses eventos anteriormente passavam despercebidos. “O jogador ainda tem a seu favor o status de ídolo. E se já é difícil para uma mulher conseguir levar à frente uma denúncia quando o agressor é um homem "normal", eu diria que quando envolve um jogador de futebol, a missão é praticamente impossível”, acrescenta.

Futebol como espelho

Em nenhum lugar do mundo o futebol é diferente da sociedade. Mas a recorrência desses casos pode ser explicada pelo número de assassinatos de mulheres no Brasil, país tradicionalmente sexista e que respondeu por 1.206 dos 3.722 feminicídios registrados em quinze países latino-americanos em 2018, segundo relatório da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal). 

Além disso, por ano o Brasil registra mais de 66 mil agressões sexuais e 263 mil casos de violência doméstica, alerta a organização Fórum Brasileiro de Segurança Pública. “O futebol é o espelho ampliado do que acontece na sociedade (...) o futebol figura como uma espécie de catalisador da questão de violência que a gente vê fora do futebol”, explica a historiadora Diana Mendes, que tem dedicado sua carreira para investigar o futebol no Brasil, para o jornal Correio Braziliense. 

A contratação de Robinho trouxe de volta a discussão, principalmente pelo apoio que recebeu do presidente e da direção técnica do clube paulista, apesar das críticas de setores da torcida, da imprensa e de grupos feministas. Um patrocinador até quebrou o contrato. “Ele (Robinho), para mim, é uma pessoa maravilhosa, um exemplo de jogador”, disse o técnico do Peixe, Cuca, que em 1987 foi detido por quase um mês, acusado de estuprar uma menor junto com outros jogadores em uma viagem do Grêmio à Suíça. 

"O episódio fora do campo, que está sob judice, e a gente tem que aguardar", afirmou o treinador. O veterano atacante, quando atuava pelo Atlético-MG em 2017 foi interrogado no país sobre as acusações que pesavam contra ele, pelo suposto estupro coletivo cometido quatro anos antes, período em que vestia a camisa do Milan. 

Na época, a notícia da acusação causou indignação em parte da torcida do Galo, mas a diretoria do clube mineiro se opôs a condená-lo e alegou que se tratava de uma situação pessoal. Alguns companheiros de profissão o apoiaram. 

De volta ao Brasil três anos depois, a história se repete, embora com o surgimento do movimento #MeToo a indignação e a pressão sejam mais pungentes. “Não só repudiamos a volta do jogador, como nos sentimentos totalmente violadas e desrespeitadas”, escreveu a Bancada das Sereias, torcida do Peixe. 

“Dói, dói na alma. O Santos regrediu em uma luta de anos e só nós sabemos o quanto perdemos", concluiu.

AFP


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