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O que as crianças ganham no isolamento social?

Maior contato com os pais é um dos principais ganhos desse período

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Entre as diversas adaptações necessárias nos últimos meses por conta da pandemia de COVID-19, está a maneira com que nos relacionamos com as pessoas de uma forma geral e principalmente, das mais próximas, como é o caso da família. Mas e as crianças? O que elas estão ganhando com essas novas relações?

Segundo a psicóloga infantil Ariádny Abbud, não há dúvidas de que o maior contato com os pais é o grande fator positivo deste período. Muitas crianças comemoraram o tempo que passariam livres com os pais em casa. Já outras puderam experimentar pela primeira vez, fazer parte da rotina deles. “Fato é, que a necessidade de adaptação das famílias beneficia muito as crianças, que muitas vezes passavam o dia todo fora de casa. Essa rotina puxada, muitas vezes não oportunizava momentos de lazer em família, pois o tempo disponível em casa era destinado ao banho, jantar, fazer tarefas e dormir. Desta forma, o tempo de troca, de afeto, de aprendizado, de brincadeiras um dos maiores ganhos das crianças neste período de isolamento. Certamente, esse período jamais será esquecido por elas”, afirma a profissional.

E com tudo isso, os pais também saem ganhando, já que estão tendo a oportunidade de prestar atenção nos filhos, realizar atividades prazerosas, ensinar coisas que antes não era possível devido ao pouco tempo em casa, como por exemplo: cozinhar, arrumar a casa, plantar, etc. “Além disso, o isolamento propiciou desacelerar do trabalho, e dedicar um tempo para acompanhar o crescimento dos filhos de perto, observando suas necessidades, suas capacidades, ajudando-os com o que for preciso. Estes elementos por si só auxiliam na redução do estresse, e propiciam a criação de lembranças positivas além de serem essenciais de um desenvolvimento emocional saudável”, reforça Ariádny. 

Entretanto, também há pontos negativos a serem levados em consideração. O isolamento social afetou e vem afetando as famílias de diferentes formas: algumas tiveram perdas irreparáveis que refletem diretamente no humor dos responsáveis. “Aquelas que perderam entes queridos, que tiveram perdas financeiras significativas, ou que estão ainda mais atarefados no home office, tendo que se desdobrar para dar conta de tantas tarefas, possivelmente estão mais suscetíveis a experimentar emoções desagradáveis que refletem nas relações familiares”, explica a psicóloga. 

Além disso, o isolamento prolongado, a falta de contato com a natureza, com outros membros da família, com amigos, e a falta de rotina, podem contribuir para uma convivência estressante. “Isso pode acarretar em brigas, excesso de punições, cobrança excessiva, ansiedade, tristeza e culpa”, ressalta Ariádny. “A soma de tantos problemas e o acúmulo de emoções desagradáveis favorecem um ambiente conflitante, e dependendo da resposta dos responsáveis, as consequências para as crianças podem ser graves do ponto de vista psicológico”, alerta.

A valorização do tempo

Ariádny propõe uma reflexão: certamente momentos de grande crise nos fazem pensar. “Muitas vezes vivemos em um ritmo alucinante de trabalho e obrigações que fazem o tempo em família ficar restrito. Esse período de isolamento nos fez desacelerar, apreciar o tempo juntos, acompanhar o crescimento das crianças, desenvolver novas habilidades e, quando tudo ‘voltar ao normal’, para preservar esses ganhos será necessário manejar o tempo entre trabalho e família”, aponta a psicóloga.

Segundo ela, ao longo desses meses de isolamento, os pais puderam aproveitar um tempo de qualidade com os filhos, de atenção autêntica, e de muito aprendizado. “Possivelmente, olharam para os filhos e se deram conta de como o tempo passa rápido, e se surpreenderam com a quantidade de coisas que eles já são capazes de fazer. De repente, perceberam que as coisas mais simples eram as que deixavam-os mais felizes, como dormir em uma cabana na sala, escrever uma carta, fazer uma sobremesa, ajudar a passar o aspirador”, reflete. 

Qual seria o bem mais precioso hoje em dia além do tempo? E isso é tudo que uma criança quer dos pais: tempo e atenção. “Não há dúvidas de que o isolamento trouxe inúmeras dificuldades para todos nós, mas é na dificuldade que nos reinventamos e aprendemos. É inegável o quanto esse período nos fez nos conectar com tudo que é importante na vida: a família, e nos sinalizou a importância de adaptação da rotina para preservar esses momentos”, finaliza a profissional.

 

por Mariana Nunes

Mariana Nunes é jornalista. Ama café, praia, chocolate e futebol - não necessariamente nessa ordem. É torcedora fervorosa do Internacional e repórter do Bella Mais. @a_marinunes


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