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Humanização do parto ainda tem longo caminho a percorrer

Opções que priorizam mãe e bebê, normais ou cirúrgicas, ainda concorrem com práticas invasivas

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Após quase duas horas de caminhada na pista de atletismo de um clube de Novo Hamburgo, na região Metropolitana de Porto Alegre, as contrações da jornalista Micheli Aguiar, de 32 anos, se intensificaram. Ela já estava com 40 semanas de gravidez e o exercício físico era indicação médica. Acompanhada do marido, Vinícius Copetti, Micheli seguiu para o hospital. Eram 23h45min de uma quarta-feira de lua cheia quando foram atendidos.

Fizeram os exames para acompanhar a saúde da mãe e do bebê e então ficaram em uma sala de pré-parto. As contrações estavam cada vez mais fortes e a dilatação do colo de útero já ultrapassava os 8 centímetros - o que aponta que o trabalho de parto está bem evoluído - quando Micheli se sentou em uma bola de pilates para aliviar a dor nas costas e a das contrações. O marido a ajudava nos alongamentos e fazia massagem em suas costas. Além disso, constantemente, ele precisava lembrar a esposa de respirar. “Na hora, por causa da dor, a gente não lembra de respirar”, conta a mãe.

O médico Fabiano Vasconcellos colocou então uma playlist para tocar no celular. A música “Era uma vez”, de Kell Smith, tem 3min45seg de duração, mas não havia terminado quando Vicente nasceu, à 1h15min de 1º de fevereiro. “Eu dei à luz de cócoras. O médico estava deitado no chão sobre um lençol e isso diz muito da humanização do parto no meu caso: quem importava ali era o Vicente e eu, não o médico”, ressaltou.

Durante o trabalho de parto, que desde a entrada no hospital até o nascimento do bebê durou cerca de 2 horas, Micheli não sofreu nenhum tipo de intervenção. “Não tive soro, nem ocitocina (hormônio que estimula o trabalho de parto). E isso é fantástico para mulher, porque eu levantei sozinha do meu parto.” Apesar de a mãe e o bebê estarem bem, uma portaria do Ministério da Saúde determina prazo mínimo de 24 horas para a liberação do hospital após parto normal sem complicações. Contudo, devido à agenda da pediatra da família, eles só tiveram alta na sexta-feira, 39 horas depois. “Por mim, era eu e a Kate (Middleton): tinha dado à luz e saído do hospital”, brinca Micheli.

Por sinal, a cena da duquesa Kate Middleton deixando o hospital St Mary, em 2018 em Londres, cerca de sete horas após dar à luz ao terceiro filho, Louis Arthur Charles, ao lado do marido, o príncipe William, chamou atenção dos brasileiros e provocou manifestações nas redes sociais, especialmente críticas ao que seria o “modelo de partos no Brasil”. 

Isso porque 41,9% dos partos na rede pública brasileira são cesáreas, segundo dados de 2017 do Ministério da Saúde. Já no setor privado, o número pode chegar a 90%. O procedimento exige que a mulher fique, pelo menos, 48 horas no hospital. E, mesmo com a alta médica, a mãe normalmente sente dores por alguns dias devido à cirurgia, além de precisar tomar alguns medicamentos. 

Alto número de cesáreas

O Brasil é apontado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um dos líderes em cesáreas no mundo. Segundo a OMS, a taxa elevada transformou a cirurgia em uma “epidemia”.
 
O procedimento permite o parto em segurança em situações em que haja risco para mãe ou bebê. A cesárea também faz parte de um parto humanizado, assim como o parto natural sem violência obstétrica, desde que seja uma vontade da família ou que seja necessária a intervenção. “O parto humanizado pode evoluir para a cesárea em situações em que haja risco tanto para a mãe como para o feto. Não há garantia de que alguém que busque atenção humanizada ao nascimento terá um parto normal”, explica o médico Fabiano Vasconcellos, que acompanhou Micheli desde antes de ela engravidar. 

A obstetriz Ana Cristina Duarte, diretora do Grupo de Apoio à Maternidade Ativa (Gama) e do Simpósio Internacional de Assistência de Parto, diz que no Brasil se vive em uma cultura que entende “o parto (normal) como uma coisa perigosa, dolorosa e que deixa sequelas”, por isso a disseminação da cesárea. “De fato quando tem um parto complicado, com anestesia, episiotomia, e bastante remédios, essa mulher vai precisar de uma vigilância diferenciada, assim como quando se passa por uma cirurgia”. Por isso, “para nós brasileiras, uma pessoa sair depois de sete horas de parto andando (como foi o caso da Kate) é realmente surpreendente”.

Vasconcellos aponta que muitos fatores fazem o Brasil ostentar o alto número de cesáreas. Os principais são culturais: o medo da dor e do sofrimento, além de facilidades como agendamento da cesárea, que faz com que família e médicos possam se programar. O parto natural exige que o médico permaneça ao lado da paciente em todo o trabalho de parto, que pode demorar muitas horas. Além disso, cita fatores sociais, como medo dos pacientes em se deslocar à noite até o hospital em cidades violentas, e econômicos, como a falta de investimento em obstetrícia por parte dos governos e também das instituições privadas.


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